quarta-feira, dezembro 31, 2003

O sono dos justos?



Salvador Dalí, O Sono


     O Portugal e Espanha, pelo menos nos moldes em que existiu até hoje, termina aqui.

     Por razões académicas e pessoais, o seu autor não tem disponibilidade para continuar a manter diariamente este espaço actualizado.

     Este modesto "blog" irá dormir o eterno sono dos justos, a menos que possa surgir uma equipa, de preferência plurinacional, que queira continuar este projecto que sempre visou defender a Independência de Portugal e o direito dos diversos povos da Península Ibérica a serem eles próprios e a regerem os seus destinos.

     Se for possível juntar um grupo de colaboradores, que integre portugueses, galegos, bascos, catalães e pessoas de outras nacionalidades inseridas no actual Estado espanhol voltaremos daqui a alguns dias. De outro modo hoje será o último dia desta curta caminhada, mas que tem muitas outras caminhadas longas a antecedê-la.

     Ao leitores que nos visitaram, os meus agradecimentos e votos de um bom 2004.

Mário Rui Simões Rodrigues



Não merecí­amos tanto


     Em Outubro, demos aqui notícia da polémica que o Embaixador Máximo Cajal gerou em Espanha com a publicação do livro "Ceuta, Melilla, Olivenza y Gibraltar. ¿Donde acaba España?"

     Com surpresa, mas também com alguma satisfação, verificámos ao ler a obra que somos sobejamente citados ou referidos no seu interessante livro: citados, relativamente ao nosso ainda modesto labor historiográfico no que se refere à Questão de Olivença; referidos, pelos artigos de opinião que temos publicado na imprensa portuguesa sobre as relações luso-espanholas. O Embaixador Máximo Cajal mostra estar profundamente documentado sobre os assuntos que aborda e fica à saciedade provado que tudo o que se escreve em Portugal sobre Espanha é meticulosamente reunido e enviado para Madrid. Não lhe escapam alguns artigos meus dados à estampa em jornais que quase ninguém lê nem sequer o pormenor de que alguns desses artigos são simultaneamente publicados em vários jornais. Sinceramente, julgamos que não merecemos tanto.

     Aqui fica um naco dessa prosa e das referências não sei se elogiosas se insultuosas que são feita à minha modestíssima pessoa, quando sou tratado como «ultranacionalista». Reparem-se nas notas de rodapé, já que não temos assim tanto mérito que justifique, a não ser em poucos passos do livro quando trata de Olivença, sermos referidos no texto principal. Leia-se pois:


Al despreciativo comentario de que Portugal es «la decimoctava comunidad autónoma española» se alza el de «en España cuanto peor, mejor». Porque lo cierto es que para no pocos portugueses una España dividida y, consecuentemente, debilitada nivelaria la actual desigualdad objetiva que existe entre los dos países (162), raíz de todos sus males. Portugal no seria una «autonomía» española más, sino una nación que podria tratar de igual a igual, cuando no por encima del hombro, a una Euzkadi y a una Cataluña independientes (163). Seria entonces cuando podria medirse sin desdoro con el vecino restante. Y no digamos si además Galicia negara a desgajarse del tronco común o incluso, utopía que todavía algunos acarician a uno y otro lado del Miño, a integrarse en Portugal. Vuelta atrás. Portugal, de nuevo, enfrentado a Castilla, como en los buenos tiempos de los «Cinco Reinos». Porque para quienes así piensan esta utopía no es la de los iberistas decimonónicos, que ambicionaban un Estado federal en la Península ibérica, sino la de los que sueñan con un Portugal más poderoso sobre las ruinas de la odiada España (164).

_________________

(162) A ese puñado de ultranacionalistas pertenecen intelectuales y escritores como Mário Rui Simões Rodrigues, autor del vitriólico artículo «País Basco: Quem tem as mãos limpas?», a raíz de las multitudinarias manifestaciones que tuvieron lugar en España tras el asesinato de Migul Angel Blanco, y que fue generosamente recogido por la prensa portuguesa (O Día, 31/7/1997; Jornal de Notícias, 9/8/1997); Urbano Tavares y Francisco Louçã, firmantes del titulado «Basta de hipocrisia e duplicidade» (Público, 18/7/1997), o Rui Pereira, con su libro Euskadi. A Guerra desconhecida dos Bascos. Lisboa, Editorial Notícias, 2000.

(163) «Península Ibérica está em mudança», O Día, 12/8/2002.

(164) «Correm agitados os dias em Espanha (...) Tudo com o mesmo fim: perpetuar o poder de Castela na Península Ibérica, destruindo os legítimos movimentos libertadores que redobram os seus esforços na Catalunha, na Galiza e no País Basco.», «A impossível União Ibérica», Mário Rui Simões Rodrigues, O Dia, 6/9/2002.



Acerca do reconhecimento da soberania indiana sobre Goa


     Como havíamos prometido a 18 de Dezembro, a propósito da invasão da União Indiana sobre os territórios portugueses da Índia, terminamos o ano abordando a questão da nulidade do reconhecimento que Portugal efectuou em 31 de Dezembro de 1974 dessa ocupação.

     Melhor do que falarmos por nós, transcrevemos o que André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadro escreveram no seu conhecidíssimo "Manual de Direito Internacional Público":

Concretamente quanto aos tratados de reconhecimento de soberania sobre territórios coloniais ocupados pela força (é o caso do Tratado entre Portugal e a União Indiana de 31 de Dezembro de 1974, em relação aos territórios de Goa, Damão e seus enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, e Diu), eles, para além de violarem a norma cogente do direito à autodeterminação, infringem também outra regra do ius cogens: a condenação do recurso à força como meio de adquirir direitos (aqui, territórios). Essa condenação, que já vem da doutrina Stimson e do Pacto Briand-Kellog, resulta hoje do artigo 2.º, n.º 4, da Carta das Nações Unidas; foi mais tarde enfatizada pelo primeiro princípio enunciado na há pouco citada Resolução n.º 2625, e pelos artigos 5.º, n.º 3, e 7.º da citada Resolução 3314 sobre a Definição de Agressão; e foi acolhida, como tal, pela jurisprudência internacional, como se pode ver pelo recente Acórdão do TIJ de 27 de Maio de 1986, já citado, sobre o caso das actividades militares e para-militares na Nicarágua. Por isso, aqueles tratados são nulos, por força do disposto no artigo 53.º da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Sendo assim, tais tratados não retiram aos povos dos territórios ocupados o seu direito à autodeterminação nem fazem apagar as obrigações que incumbiam aos Estados que administravam os territórios à data da sua ocupação. Esses territórios continuam, pois, por descolonizar.

     Poderemos em face do exposto perguntar: O Estado português ou a Comunidade Internacional farão alguma coisa para que os habitantes das antigas possessões portuguesas da Índia, em especial os de Goa que tinham uma identidade histórica e cultural indiscutível, exerçam o seu legítimo direito à autodeterminação? Dificilmente farão seja o que for. Certamente teremos aqui mais um caso em que perante a força o Direito Internacional nada vale...

     No que respeita ao Estado português a mesma falta de princípios e de coragem que vemos quanto a Goa é bem patente no caso de Cabinda, um Protectorado português integrado às cegas e à força em Angola contra a legítima vontade dos seus habitantes. De resto, diga-se, toda a "descolonização" portuguesa desrespeitou as mais elementares regras do Direito Internacional. Em nenhuma província portuguesa, a não ser em Timor (primeiro abortadamente pela invasão indonésia e depois apenas de modo muito parcelar... no referendo sobre a autonomia permitido mais recentemente por Jacarta), se realizou um genuíno processo de autodeterminação. A nenhum dos povos que estava integrado no então pluricontinental Estado português foi perguntado se queriam continuar ligados a Portugal ou se queriam ser independentes... A mim, pelo menos, não me perguntaram nada!...



A propósito de Goa


Dias de Goa

A velha senhora aproxima-se de nós, magra e ligeiramente curvada, mas ainda ágil de movimentos. Saúda-nos em inglês. "Pode falar em português, mãe" - diz o filho, um senhor de meia-idade, na mesma língua. "Vêm de Portugal." O rosto dela alegra-se enquanto comenta: "Ainda bem, sinto-me mais à vontade, mesmo sem ter oportunidade de praticar com frequência."

Estamos em Chandor, a leste de Margão. Visitamos uma das casas mais emblemáticas da antiga aristocracia senhorial de Goa, a casa Bragança. É uma entre muitas outras espalhadas por todo o território, testemunho da grandeza e do fausto das grandes famílias da Goa colonial. No seu excelente livro ("Palácios de Goa", Lisboa, 2ª ed., 1996), Hélder Carita faz uma boa apresentação dessa encantadora arquitectura indo-portuguesa.

Esta é (alguém nos refere depois) a "Dama de Chandor", como a denominou um filme da RTP, anos atrás, realizado por Cristina Mourão. Mostra-nos a casa, as salas amplas, o mobiliário goês, as porcelanas chinesas, os lustres de cristal belgas, a rica biblioteca em estantes baixas, os retratos a óleo dos antepassados. Posa com gosto para a fotografia, num canapé debaixo de um deles, direita e digna, como convém à sua condição. Explica-nos por que resolveu abrir a casa a visitas pagas (de resto uma pequena contribuição). Depois de 1961, após a incorporação na União Indiana, veio uma reforma agrária que privou a família de grande parte dos seus rendimentos fundiários. Depois, os descendentes foram-se ausentando para outras paragens. O turismo cultural foi a alternativa que encontrou para poder manter a casa. À despedida comenta, com uma sombra no olhar, que não sabe o que sucederá à casa depois dela.

Hoje é dia da peregrinação de São Francisco Xavier, na cidade de Velha Goa, onde se encontra o túmulo do evangelizador do Oriente, referência dos católicos goeses e não só. São dezenas de milhares de pessoas que se espalham pelos amplos terreiros ou à sombra dos palmares. Uma longa fila serpenteia lentamente, desde as quatro horas da madrugada, ao encontro do túmulo do apóstolo, na Basílica do Bom Jesus, objectivo primordial para muitos dos peregrinos. Suportam estoicamente horas de espera sob o sol inclemente dos trópicos. Vêm com os seus atavios festivos, a maior parte delas vestindo os mais belos saris, quase todos eles de fato escuro, camisa branca e gravata. As crianças não faltam nos seus trajos garridos. Chamam-nos a atenção as flores e oferendas de frutos, que muitas pessoas trazem, semelhantes aos que encontramos nos templos hindus. É evidente o sincretismo religioso.

Findos os dias da peregrinação, a antiga capital portuguesa do Oriente, que segundo rezam as crónicas tinha mais de 200.000 habitantes e suplantava Lisboa em grandeza e monumentalidade, voltará à sua condição de cidade-museu abandonada. Hoje só restam algumas das grandiosas igrejas de outrora. Vistas do cimo da colina sobranceira, onde se encontra a igreja da Senhora do Monte, recentemente restaurada pela Fundação Oriente (que tem em Pangim uma bela sede, num edifício de arquitectura tradicional indo-portuguesa), as igrejas da velha cidade alvejam isoladas entre a floresta muito verde, delimitada a norte pelo azul intenso do rio Mandovi.

Com a ajuda dos velhos mapas e gravuras de viajantes de outrora tentamos reconstituir a topografia da cidade desaparecida, tomando por ponto de referência o Arco dos Vice-Reis, porta de entrada na cidade para quem chegava pelo rio acima. Aqui em frente da Sé ficava a Praça Velha; ao lado, o palácio da temível Inquisição de Goa; mais além, o paço dos vice-reis; aqui, seguia a Rua Direita, uma das mais importantes da buliçosa cidade antiga. E assim por diante. É impossível resistir sem emoção a esta reposição imaginária da grandiosa metrópole de outrora.

Entre os motivos que tornam obrigatória a visita à cidade desaparecida contam-se o museu da arte sacra, que a munificência da Fundação Gulbenkian organizou (inicialmente instalado no Seminário da Rachol, mais para sul), e o museu arqueológico, no Convento de São Francisco de Assis, cuja monumental igreja ainda ostenta o primitivo portal manuelino, preservado na sua reconstrução seiscentista. O museu é notável, especialmente pela colecção de retratos de todos os vice-reis e demais governadores da Goa portuguesa, desde D. Francisco de Almeida ao general Vassalo e Silva. A maior parte deles encontrava-se no palácio do Governo em Pangim, que se tornou capital do território depois do abandono oficial de Velha Goa. É uma colecção impressionante, tanto pelo número de figuras ao longo de 450 anos (os mandatos foram em geral de curta duração) como pela solenidade dos retratos a óleo. Somente o último governador não tem direito a mais do que uma fotografia a preto-e-branco. Todos são de origem europeia, salvo um único goês, Bernardo Peres da Silva, que (somos informados mais tarde) governou efemeramente o território em 1835-36, no seguimento do triunfo liberal em Portugal. Hostilizado pela elite goesa, predominantemente miguelista, viu-se obrigado a fugir para Damão, de onde governou à distância durante alguns meses, até ser substituído. Mas o mais insólito da galeria de Velha Goa está no fim da exposição, quando nos aparecem inesperadamente os retratos coevos dos presidentes da República do Estado Novo (Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás), bem como o de Salazar, na sua gravidade oficial. Manifestamente é preciso ir a Goa para encontrar reunidos os supremos dirigentes da ditadura!

Deambulando pelo Bairro das Fontainhas - que preserva na arquitectura e nos nomes das ruas e dos estabelecimentos intensas marcas da Pangim portuguesa - encontramos por acaso o restaurante Ferradura, numa esquina da Rua de Ourém, marginando a ribeira do mesmo nome que lá ao fundo desagua no Mandovi. O nome não nos era desconhecido; na verdade, aparece mencionado no livro do José Eduardo Agualusa "Um Estranho em Goa" (Lisboa, 2000), que dá o restaurante como pertencendo a um cidadão português, que era "comando" do exército colonial em Angola e que após a independência em 1975 se juntou à UNITA, para pouco depois deixar África e acabar em Goa, logo em 1976, com vários portos pelo meio. Haveremos de voltar para jantar e para verificar a estória. O ambiente é caracteristicamente português, nos cartazes expostos nas paredes, na música ambiente, no menu. O dono aparecerá na hora do café. Perguntamos se o relato do escritor angolano corresponde à sua biografia. "Mais ou menos" - responde ele; "no essencial, sim". Conta-nos ele mesmo a sua insólita história pessoal. Um português errante em busca do seu Oriente. Hoje sente-se em Goa como se fora a sua terra.

Já não dá para nos surpreender. Também nós, ao fim de poucos dias, cada vez nos sentimos menos como estranhos em Goa.


VITAL MOREIRA

PÚBLICO

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2003


De um leitor


     Há leituras que ficam dançando lá nos cantos obscuros da mente. Uma delas foi a carta da Senhora Oliventina que aqui trouxe o Portugal e Espanha.

      E porquê? Perguntei-me eu a mim mesmo. O que teria a tal carta para que eu ficasse sensibilizado?

     Penso que pode ter sido por causa desta passagem da Bíblia que eu li quando bem pequeno:



Então ele lhes propôs esta parábola:

Qual de vós é o homem que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre?

E achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo; e chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos e lhes diz:

Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.


Lucas 15:3-6

Cumprimentos
Manuel Peres Alonso



Do Jornal de Notí­cias


Líder do BPI teme invasão espanhola


A manutenção dos centros de decisão em Portugal é para Santos Silva o grande desígnio nacional

Joana Amorim
e Pedro Ivo Carvalho
José Mota

A poucos meses de deixar a presidência executiva do BPI, Artur Santos Silva fala ao JN da importância de "conservar em mãos portuguesas o controlo das principais empresas nacionais". Isto, porque, frisa, a soberania de Portugal "está posta em causa". Apoia o esforço de contenção orçamental e subscreve o apelo de Jorge Sampaio à cooperação entre as forças políticas.

[Jornal de Notícias] Não lhe causa estranheza ver empresários a defenderem os centros de decisão nacional que, depois, vendem as suas empresas?

[Artur Santos Silva] É decisivo para os interesses de Portugal que as empresas com maior interesse estratégico se mantenham controladas por interesses portugueses. Vivemos uma fase de construção da União Europeia (UE) em que a nossa soberania está, emmuitos aspectos, posta em causa. E isto deve fazer-se sem protecções e sem procurar ter privilégios.

De que forma?

Exige uma grande cooperação entre os principais grupos portugueses financeiros e não financeiros. Devem cooperar e articular as suas posições para assegurarem que os interesses portugueses não são postos em causa.
O que não é fácil.
Não, mas é o desígnio nacional de primeira importância o de conservarmos em mãos portuguesas o controlo das principais empresas nacionais.

A ameaça da invasão espanhola é real?

É. Há muitas empresas portuguesas que têm sido compradas por interesses espanhóis. Não conheço nenhum país da Europa em que haja no sistema financeiro tanta influência de um país como a Espanha tem em Portugal.

Porquê?

Simplesmente, porque houve portugueses que venderam os seus bancos a espanhóis. Veja o que aconteceu agora em Espanha com o Banco Atlántico, que é um pequeno banco, mas os espanhóis prepararam-se para não o perder. Porque estamos nesta fase de construção do mundo é raro ver um espanhol que controle uma empresa com interesse relevante vendê-la a um estrangeiro. Espero que todos nós estejamos conscientes que, para termos êxito no futuro, para sermos donos dos nossos destinos e para preservarmos a nossa independência, temos que perceber que termos a maior parte das nossas empresas de valor estratégico em mãos portuguesas é a melhor maneira de assegurarmos a nossa soberania.

O que está relacionado com o nosso empresariado. Conhece o "Compromisso Portugal"?

Conheço mal. Do meu ponto de vista é muito importante que todos nos mobilizemos para defender os interesses do nosso país. Mas não basta dizer, é preciso fazer. O que é importante é que saibamos assegurar isso, não é que andemos só com bandeiras no ar.

É esse o grande desafio?

É. Mas um outro grande desafio que temos é que o nosso país tem que ser um vencedor na batalha pela inovação e pelos ganhos de produtividade. Tem que haver meios financeiros - o Estado, quaisquer que sejam os contrangimentos financeiros, tem que apoiar estesesforços de importância fundamental para o nosso futuro. É também desejável que haja uma renovação de mentalidades no tecido empresarial.

Como avalia a governação de Durão Barroso?

O esforço de consolidação orçamental era indispensável e incontornável. A ineficiência do Estado tinha que pesar menos na economia e no nosso bolso.

Como se resolve essa ineficiência?

É preciso um enorme esforço na Administração Pública (AP). Concordo com o presidente da República para que haja um maior consenso nacional. É fundamental que as forças políticas venham a estabelecer um acordo porque a situação não é sustentável.

Está a defender um pacto de regime?

Interessa pouco o que se lhe queira chamar. Acho muito importante que haja um debate urgente, intenso e profícuo entre as principais forças políticas sobre aquilo que há a fazer. O grande problema da nossa sociedade é a fraquíssima qualidade da AP. Que sentimos em áreas vitais como a saúde, a educação e a justiça. Se não houver uma justiça a funcionar bem nós viveremos numa sociedade sem lei.

E está a funcionar bem?

Não está. É uma reforma inadiável. A lei é a raiz do processo democrático, como expressão de vontade das maiorias.

E a educação?

É o maior problema para o desenvolvimento do nosso país. O maior desafio que Portugal tem é vencer a batalha da educação. É onde estamos pior..

Jornal de Notícias
30/12/2003


terça-feira, dezembro 30, 2003

Sem comentários




Don Juan Carlos pide al Apóstol que mantega a los españoles "en el marco estable de convivencia". (El País - 30/12/2003)

De dois luso-espanhóis, nascidos em Sevilha


     De Diogo Rodrigues da Silva Velázquez, filho do português João Rodrigues da Silva e da andaluza Jerónima Velázquez.


A Adoração dos Magos
1619, óleo sobre tela
204 x 126,5 cm
Madrid, Museu do Prado


     De Josefa de Óbidos, filha do português Baltazar Gomes Figueira e da andaluza Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero.


Adoração dos Pastores
1669, óleo sobre tela
150 x 184 cm
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga



Para Galegos fartos do espanhol


     Da autoria do galego Valentim R. Fagim, é um excelente texto para se perceber a sofocante tirania castelhanizante a que estão sujeitos na Galiza os verdadeiros galegos...

Estás realmente farta do espanhol?


Este texto recolhe uma série de conselhos para pessoas realmente fartas do espanhol. É por isso que aconselhamos que reconsidere, à consciência, as palavras realmente e farta. Se uma vez realizado isto a resposta à nossa pergunta continua a ser Sim, não abandone estas linhas.

Como dissemos, pretendemos cá dar umas pautas que estamos certos tornaram a sua vida mais nutritiva. Não pretendemos cá e agora entrar em disquisições do porquê do seu aborrecimento nem achamos que faça falta apontar que este se projecta não tanto sobre a língua mas sobre algumas das pessoas que a falam. E parámos cá porque também não pretendemos ser politicamente correctos.

Vamos, pois, àquilo que realmente nos importa.

Começaremos com uma medida radical na transformação do seu mal-estar: venda o seu televisor já. Não raro lhe darão metade do que lhe custou mas muito mais importante do que possa ganhar é o que vai perder. Pense nesses telejornais onde a Espanha é uma potência mundial e a sua voz temida e respeitada, os nossos desportistas alcançam triunfos todos os dias (talvez porque existam um milhar de desportos diferentes) ou a nossa solidariedade é obrigada a se dirigir para Múrcia e não para Chaves. Pense nas mensagens natalícias do Rei, no Festival de Eurovisão onde sempre nos representa a língua comum, no informação meteorológica que não nos fala do Porto e sim de Maiorca (onde todas veraneamos um em cada dous Verãos, não é?), nos programas de mexericos, no grande Irmão onde devemos torcer por um/uma deficiente mental porque nasceu a 50 quilómetros da nossa moradia...

Sim, é certo, você não gosta da televisão, é a sua irmã, o seu pai, a sua companheira, o seu colega de apartamento quem gosta e você por não chatear... bom, já sabe como é isto, sempre são os outros os responsáveis mas, por uma vez e servindo de precedente, seja sincero consigo. É evidente que existem dias que estamos baixos e ficamos com o encefalograma plano diante da TV, isto é humano, mas há outras formas de se evadir que penso sinceramente são menos perniciosas. Não as vou enumerar porque algumas são ilegais e num país onde querem encarcerar um Presidente Autonômico por convocar um Referendo não é para brincar com estas cousas.

Uma segunda medida que lhe propomos tem a ver com o masoquismo radiofónico. Chega de escutar Cope, Onda Cero e outras dominatrizes várias! Reconheçamos que é uma forma económica de atingir a dor mas também é certo que existem outros meios igual de poupados como, por exemplo, umas cordas do material mais humilde e duas ou três velas se possível aromáticas, algo que está ao alcance das economias mais precárias e que tem a vantagem de se fazer entre duas pessoas (o seu namorado/a vai adorar mesmo!). Basta pois de escutar debates entre cinco pessoas que pensam igual e, o que é pior, não pensam lá muito. Reconheça, além do mais, que faz isso para reafirmar-se, para sentir-se superior mas se é disso do que se trata propomos-lhe alguma das seguintes medidas:

a) Vá até um café um Domingo de tarde para ver como uma multidão de pessoas se solidariza e torce com indivíduos que têm tanto afecto polas cores que portam como a Enron ou a General Motors pola cultura mesopotâmica.

b) Assista de noite a um local do mais comercial e teste como as pessoas que estão lá investiram 2 ou 3 horas para se parecer o menos possível a elas próprias.

No entanto, já está bem de desprender-se de coisas. É o momento de fazer um investimento: compre um computador. Cada vez são mais económicos e hoje podem-se arranjar por menos de 500 euros por não falarmos já no mercado em segunda mão. Animamos desde aqui as entidades financeiras para que comecem a oferecer créditos informáticos com o aval de a sua vida melhorar e portanto a sua capacidade de gerar rendimentos.

E porque um computador? Bom, pense que através do computador teremos acesso a Internet e portanto a sua capacidade de escolha aumentará exponencialmente. Na rede poderá encontrar inúmera literatura de todo o tipo bem como filmes, música e programas televisivos mas já não unicamente os filmes, a literatura, a música e os programas televisivos que lhe oferece o seu Estado na língua comum; enfim, poderá desregionalizar-se. Poderá até escolher estar informado ou desinformado (enquanto na TV convencional isto é impossível). Poderá igualmente comunicar-se com pessoas mas não apenas com as que vivem dentro das suas fronteiras e sim com outros cantos do mundo com os que compartilhe a língua (e às vezes, para comunicar, nem isto faz falta, já sabem).

Recomendamos ainda uma segunda compra, esta mais humilde: um reprodutor de CDs portátil e, o que é mais importante, uns audiofones. Para quê? Para sobreviver nas longas viagens de autocarro, nos comércios ou nas ruas no Natal onde, sem prévia consulta popular, somos deliciados com a música que um reduzido grupo de pessoas decidiu devemos adorar. Ainda, se estivermos no autocarro e nos calhar acima da cabeça algum debate entre todos-pensamos-o-mesmo só têm que mostrar as cordas e as velas de que falávamos antes e o próprio condutor prover-nos-á dos auscultadores (se não for assim peça o livro de reclamações, meu!)

Por fim, deixe de frequentar ambientes hostis. Basta de deixar-se arrastar polas amizades chatas do liceu em direcção a locais que o estarrecem. Seja sincero com elas e diga-lhe do que realmente gosta. Como fazer isto, dizermos do que realmente gostamos, costuma resolver-se na perda de amizades passe a buscar pessoas que como você estão fartas do espanhol. Podemos garantir que há milhares e tentem criar ambientes que reflictam a sua sensibilidade. Quantas mais pessoas se reunirem mais fácil será que existam cafés onde quando se peça: um café com leite, por favor! não lhe respondam: un café con leche? (por não falarmos da paralise que provoca no empregado meio galego a palavra “morno”). Pensem também em restaurantes onde não terá que escolher forçosamente “Cozido Galego” para não entrar nas frustrantes traduções simultâneas do género pescada/merluza ou vitela/ternera. E não serão apenas restaurantes nem cafés mas locais sociais, lojas, bancos... enfim, o mesmo mundo que usufruem as pessoas que adoram o espanhol. E ficamos por cá, desejando-lhe valor mas assegurando-lhe que a sua vida se tornará mais satisfatória.

Valentim R. Fagim
AGAL


Grande entre os pequenos, pequena entre os grandes...


     Nas vésperas da Invasão do Iraque e no seu início, a Espanha viveu um dos momentos de maior afirmação internacional da sua história recente, aparecendo ao lado da única superpotência mundial - os EUA - e da grande potência que é o Reino Unido. Se é verdade que "a sorte protege os audazes", Aznar foi providencialmente bafejado pela sorte: nesse momento a Espanha era membro não permanente do Conselho de Segurança. E perante a posição francesa e russa, Madrid viu-se catapultada ao lugar do terceiro pé da emergente coligação.

     Mas apesar dos grandes progressos económicos espanhóis, Madrid tem de se convencer de que, por enquanto, a Espanha é grande entre os pequenos, mas ainda é muito pequena entre os grandes...




Tributo a Adriano Moreira


A relação com o mar



O movimento europeu, em qualquer das propostas teóricas do passado, e em qualquer das políticas oficialmente assumidas pelos Estados membros da União e pelos que serão admitidos, preservou sempre o valor da identidade de cada um dos povos envolvidos. Aprofundou até a visibilidade do que alguns autores chamaram a outra Europa, isto é, as comunidades sem voz própria no historial das soberanias, e que puderam exprimir-se com audiência, quer porque se libertaram de submissões políticas, quer porque se abriu caminho à presença activa das regiões no processo em curso. Trata-se de um procedimento que todavia não escapa à teoria dos efeitos não queridos ou não previstos, dada a impossibilidade de identificar todas as variáveis, incluindo as supervenientes, no momento de decisão. Por isso o movimento europeu é fértil na demonstração de que a incerteza permanece no horizonte, o qual vai sendo enriquecido pela variedade de efeitos colaterais, nem sempre susceptíveis de serem racionalizados com o projecto. A Espanha das nacionalidades, com uma pluralidade de autonomias variáveis, dá sinais de ter de preocupar-se com efeitos dessa espécie, e muito concretamente com a mudança do panorama governativo que se verificou na Catalunha. Também requer atenção o conflito de leituras sobre a recusa de que foi objecto a chamada Constituição europeia, à medida em que se foram multiplicando as impertinências da disponível liderança franco-germânica em exercício. Entre os efeitos eventuais a ponderar, no caso da pretendida imposição integral do texto, sem admitir qualquer consenso alternativo, parece inevitável incluir a deriva da igualdade dos Estados, sempre mais relativa esta do que o que as leis proclamam, para a criação de uma espécie de autonomias periféricas, às quais os grandes poderão indicar quando guardar silêncio. Os efeitos colaterais, imprevistos ou programados pelos responsáveis como despiciendos, podem ter o efeito perverso de atingir as identidades dos países. No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

Diário de Notícias
30/12/2003




Um "cartoon"...


...para os corifeus da anárquica globalização, para os arautos do europeísmo federalizante, para os neófitos do ultraliberalismo antinacional e para os radicais do imperialismo castelhano...





segunda-feira, dezembro 29, 2003

O pior cego


     Só hoje pude ler o artigo do rapazola da ex-portuguesa Somague, publicado no jornal O Independente, de 24 de Dezembro.

     Não sei se o menino Vaz Guedes é mesmo o autor da prosa ou se a encomendou a algum escriba de serviço.

     Sem dúvida que o texto está bem escrito. Fala muito bem sobre a reestruturação e diversificação de actividades da Somague, coisa que qualquer pessoa que acompanha a vida empresarial portuguesa conhece e elogia. Este modesto escriba, apesar dos seus parcos rendimentos de um singelo professor, percebendo há muitos anos o potencial da empresa foi accionista da Somague, em duas épocas diferentes, tendo obtido nas operações que realizou mais-valias de cerca de 100%. E se bem me lembro, já há uma série de anos, também ganhei uns cobres nuns Warrants da empresa. A Somague era uma empresa promissora e soube resolver as dificuldades que a certa altura teve. Felicitam-se os responsáveis por tal política.

     O menino Vaz Guedes faz até umas apreciações sobre a adesão de Portugal à  CEE (hoje União Europeia), mas os resultados económicos do Paí­s parecem desmentir a tese do "bom aluno", em que ele acredita, muito popularizada nos tempos de Cavaco. Hoje percebe-se que o aluno - Portugal - foi muito cábula - porque comparado com a Irlanda reprovaria com 2 ou 3 valores na escala de 1 a 20, contra um 18 daqueles célticos insulares...

     Muitas das coisas que escreve no artigo estão bem escritas e bem ditas, mas pretendendo rebater as muitas crí­ticas que lhe fizeram, quanto ao essencial, o menino Vaz Guedes nada diz e ainda não percebeu o problema em que se meteu e em que nos meteu a todos. Mas dentro em breve vai perceber. Apesar de passar a deter um pouco mais de 5% da Sacyr, não tardará, mandará nesta empresa tanto quanto eu mandava na Somague quando detinha 0,000001% do capital: NADA!

     Na vida, às vezes leva tempo a perceber que a espertice não passa de estupidez...



     O pior é que não vai ser só ele e a sua família a perceber a burrice em que se meteu. Graças ao miúdo "esperto", a Espanha introduziu dentro de portas um poderoso "cavalo de tróia" com capacidade para liquidar as outras grandes construtoras nacionais. E de repente, 17,1% da Lusoponte, a detentora da Ponte Vasco da Gama, passou para mãos espanholas. Talvez agora até possam passar a chamar-lhe Ponte Hernando Cortez ou Francisco Pizarro...


Dois reveses para a Espanha...


Telepizza desiste actividade México e França

A Telepizza vai encerrar as suas unidades no México e na França “por inviabilidade na continuação da actividade”. A empresa de restauração espanhola termina assim a reestruturação a nível mundial.
A empresa vai vender os bens, direitos e activos em ambos os países. O resultado do exercício de 2003 atinge um máximo de 33 milhões de euros. Contudo, está sujeito ao resultado do processo de liquidação de activo, que prevê concretizar o primeiro trimestre de 2004.

Recorde-se que a Telepizza já tinha encerrado a sua actividade, em 2001, no Reino Unido e em Marrocos, uma vez que “não oferecias perspectivas de rentabilidade”. No México e em França, a empresa equacionou a hipótese de reconduzir o negócio através de franchising, no entanto não “ofereceu os resultados esperados”.


______________


Ibéria e British Airways desistem fusão

A British Airways recua, para já, uma possível fusão ou maior participação no capital da companhia aérea espanhola Ibéria. “As actuais circunstâncias não garantem nem proporcionam condições para as companhias aéreas concretizarem o negócio”, assegura Carlos Gómez, director executivo da Ibéria em Espanha e Portugal. A actual regulamentação do sector aérea trava as referidas condições, uma vez que impede que companhias aéreas retirem “proveitos da fusão ou da aquisição” e a “cidadania das companhias determina que os países possam votar”, por isso “não faz sentido a perda de nacionalidade e, com ela, os direitos de tráfego”. “Por muita liberdade que haja na Europa em volta deste tema, temos de acompanhar o resto do mundo. Não se pode impedir uma fusão ou a aquisição de capital”, considera Gómez. A Comissão Europeia autorizou, no passado dia 10, a aliança entre a British Airways e a Ibéria. Em troca exigiu o fim de algumas permissões de ‘slots’ (permissão para levantar e aterrar) nos aeroportos de Madrid, Barcelona e Gatwick. O responsável da Ibéria prevê um aumento no movimento aéreo nos aeroportos espanhóis dentro de um ano. Por isso, considera que é melhor aguardar pela maior competitividade, de forma a garantir os ‘slots’. A Ibéria vai, para já, apostar de novo no mercado da América Latina.

(Fonte:www.ljcarregosa.pt)

Aznar: El Matamoros



domingo, dezembro 28, 2003

Do Notícias Magazine


     Embora o defenestrado seja Miguel de Vasconcelos, em 1640, e seja este o nome que mais se adequa ao rapazola da ex-portuguesa Somague, já que o Andeiro era galego, não desperdiçamos a oportunidade de dar mais uma martelada neste aleivoso, embora seja um entre muitos: outros até são piores já que ocupam lugares governamentais...


O Defensor da Nação



Lembram-se daquele manifesto entregue ao presidente da República e ao primeiro-ministro em que um grupo de quarenta empresários portugueses reivindicava que os centros de decisão se mantivessem dentro de portas, e pediam a união contra a hegemonia de Madrid? Pois um dos primeiros subscritores era nada mais nada menos do que Diogo Vaz Guedes, administrador delegado de uma das maiores construtoras portuguesas, a Somague. Até aqui tudo bem, não fosse o facto de, para surpresa geral, o senhor ter decidido entregar a sua empresa nas mãos de - surprise!, surprise! - uma mega-empresa espanhola, a Sacyr. Veio então o novo conde Andeiro (o outro foi pela janela em 1383), a argumentar que não é nada disso, que se tratou apenas de uma troca, e que agora com a percentagenzinha que detém na Sacyr vai fazer finalmente frente aos espanhóis contra os quais vociferava! Que foi um bom negócio ninguém dúvida, mas que não é propriamente o que se esperava de quem andava a protestar contra as mais recentes Aljubarrotas, não era. Mas também quem é que já se lembra do manifesto?


O que o Bispo do Porto disse ou quis dizer


     Os defensores do aborto rejubilaram quando, há algumas semanas atrás, saíram estampadas no semanário Expresso declarações do Bispo do Porto, alegadamente a defender a despenalização do aborto.

     Alguns espíritos mais lúcidos bem chamaram a atenção para que não interpretassem precipitadamente tais palavras. Em vão!

     Há pouco mais de uma semana o Bispo do Porto emitiu uma declaração oficial sobre o assunto. A mesma comunicação que alardeou, repetida e sonoramente, a alegada defesa da despenalização do aborto pelo Prelado portuense ficou caladinha quando este dignitário da Igreja veio esclarecer o que dissera. Enfim, são os modos de ver ou de esconder a realidade que alguns usualmente . O ónus dessas acções ou omissões fica com os seus autores. Mas, não se espere o nosso silêncio ou a nossa complacência com tais atitudes!...



Comunicado de Sua Excelência Reverendíssima
o Senhor Bispo do Porto à Comunicação Social


     O Semanário “Expresso” publicou na edição de 13 de Dezembro de 2003 uma entrevista que me foi pedida e na qual foram abordados vários assuntos.

     Recordo que a Senhora Jornalista na parte final de um diálogo muito calmo me confessou que gostava mais de fazer rádio do que fazer jornalismo, porque na rádio e em circunstâncias normais se ouvem as perguntas e as respostas sem mais, ao passo que nos jornais um texto pode passar por várias mãos até ficar pouco reconhecível.

     De facto no texto em causa verifica-se uma certa composição que não respeita sequer a sequência do diálogo havido e sobretudo começa-se por um título que provocou as mais diversas e contraditórias reacções: “Aborto não devia ser penalizado”.

     Ora, este título nem refere o essencial da entrevista (o que é, concorda-se, subjectivo), nem corresponde à verdade do que afirmei. Sobre o aborto comecei por dizer categórica e inequivocamente que sou contra o aborto, porquanto a pessoa humana tem direito à vida desde a sua concepção até à morte natural (também não admito por conseguinte a eutanásia). Perante o reparo de que há, por causa da penalização, muitos abortos clandestinos, respondi que na minha opinião continuará a haver abortos clandestinos mesmo com uma eventual despenalização.

     Confesso que sinto muito o drama das mulheres que recorrem ao aborto e que, para além do sofrimento físico, psicológico e moral, têm de enfrentar o estigma da condenação e eventualmente da cadeia (E manifestei-o na entrevista).

     Nada tenho que opor ao regulamento jurídico vigente nem ao comportamento dos profissionais da justiça, mas confesso (e confessei) que não gostaria de ser juiz para aplicar tais penalidades. E de facto não sou juiz mas, nada tendo que dizer da justiça, do cumprimento das leis e da aplicação das penas, me sinto melhor, como homem e como bispo, na minha missão de passar a mensagem da compaixão, do perdão e da paz. E é por isso que me sinto em plena comunhão e sintonia com a Igreja, a sua doutrina e os meus irmãos na fé.

     Sei que as minhas palavras, avivadas pelo texto do jornal e pelo sentido que se lhes quis dar, provocaram reacções de censura e até de repúdio, de uma parte, e também, de outra parte, elogios, felicitações e até alguma exaltação. Compreender-se-á a perplexidade e até o embaraço que sinto, por verificar que fui espelho da situação social do país a este respeito. Não renego por isso mesmo aqueles que se excederam na precipitação e nas apreciações que me chegaram às mãos ou que foram publicadas.

     Resta-me acentuar a minha fidelidade à Igreja e a minha compreensão e simpatia por todos os cidadãos do meu país, mulheres e homens. E também o meu respeito pelos diversos modos de pensar. É no respeito e na tolerância que se baseia a nossa comum cidadania e a nossa desejável fraternidade.

Porto e Paço Episcopal, 17 de Dezembro de 2003

(D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto)



Pensamento do dia



     Daí vem o caso, talvez único na Europa, de um povo que não só desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelas suas instituições, pelos seus homens superiores; que não só vive de copiar, literária e politicamente, a França, de um modo servil e indiscreto; que não só não possui uma alma social, mas se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência a dignidade colectiva.

Oliveira Martins, História de Portugal, 1879


E a Espanha aqui tão perto...


     Os habituais profetas da desgraça e as acostumadas carpideiras profissionais dos insucessos portugueses lamentaram e criticaram quanto puderam o facto de umas postas de bacalhau não terem chegado a tempo da Consoada ao Iraque, para sustento do corpo e reconforto do espírito dos nossos soldados da GNR, ainda que as culpas cabessem a uma empresa de aviação que ao que consta nem sequer era portuguesa.

     Para quem vive apoucando o seu próprio País, aqui fica um bom (ou mau) exemplo da Espanha que esses mesmos infelizes e medíocres passam o tempo elogiando...

Bomberos sin avión


Equipos de bomberos de una veintena de países, incluidos EE UU, Reino Unido, Alemania, Francia, Bélgica, Austria, Turquía, China y Japón, ya trabajaban ayer, o estaban a punto de hacerlo, en los escombros producidos por el terremoto que, en la madrugada del viernes, asoló la histórica ciudad iraní de Bam y provocó decenas de miles de muertos, heridos y desaparecidos. Un pequeño equipo de bomberos andaluces viajaba hacia Teherán, en un vuelo comercial regular en el que ellos mismos habían reservado y pagado las plazas. Irán proclamaba estar abierto a la ayuda de cualquier país, excepto Israel.

Entretanto, varias decenas de bomberos españoles, miembros de las ONG Bomberos Sin Fronteras y Bomberos en Acción, regresaban a sus hogares en Valencia, Murcia y otras ciudades, con la amargura de haber intentado sin éxito materializar su solidaridad con el pueblo iraní y aportarle su larga experiencia profesional adquirida en catástrofes similares en Turquía, Argelia, El Salvador y otros lugares. ¿Qué había ocurrido? Que en otra nueva demostración de lo bien que funciona España no habían podido subirse en la base aérea de Torrejón a un avión militar de transporte para desplazarse hacia Irán.

Las causas de este lamentable incidente son aún confusas, pero a tenor de los testimonios de los frustrados bomberos, que acudieron de inmediato a Torrejón con sus perros rastreadores y sus equipos de socorro, emerge un nuevo cuadro de falta de eficacia gubernamental. A esos bomberos, que pasaron en Torrejón la tarde del viernes y la noche del viernes al sábado a la espera de subirse en un Hércules, las autoridades de Defensa les explicaron que no habían recibido la menor instrucción para dotarles de un avión de la Agencia Española de Cooperación Internacional (AECI) o del organismo de la que depende, el Ministerio de Asuntos Exteriores. Ellos, en cambio, afirman haber recibido seguridades verbales de la AECI sobre la disponibilidad de ese transporte antes de emprender viaje desde sus ciudades a Torrejón.

Al Gobierno español se le llenó la boca de expresiones de solidaridad y ofertas de ayuda desde que comenzó a conocerse la espantosa magnitud de la tragedia en Bam. Y sin embargo, fue incapaz de dotar del medio de transporte necesario al grupo de profesionales que se plantó en Torrejón, confiando, según sus declaraciones, en la palabra, por lo demás completamente lógica, de un funcionario de la AECI. Eso sí, el Gobierno produjo ayer una catarata de comunicados: Defensa asegurando no haber recibido petición alguna; la AECI diciendo desconocer la existencia del intento de viaje solidario a Irán de Bomberos Sin Fronteras; la Oficina de Información Diplomática (OID) y Exteriores asegurando que España no movería un dedo hasta recibir una solicitud oficial del Gobierno iraní sobre sus necesidades precisas, solicitud que llegó en forma de demanda de potabilizadoras.

El frustrado intento de los bomberos confirma que el sentimiento de solidaridad es muy fuerte en el pueblo español, como ya se vio en la catástrofe del Prestige. Lástima que al gesto generoso de unos profesionales independientes y voluntarios se responda desde el Gobierno con otra muestra más de incapacidad o desidia.

EL País
28/12/2003


sábado, dezembro 27, 2003

Pensamento do dia




     A Espanha quer obter a coincidência da geopolítica e da geoestratégia na Península. De outro modo: Madrid pretende eliminar na Península qualquer dualidade de soberania. Se há na dialéctica peninsular uma constante, é o desejo, o objectivo, a obsessão espanhola de corrigir o que considera a anomalia de um Portugal independente. Essa atitude de sentimento, de pensamento e de acção atravessou séculos; e foi sempre vivaz. (...)
     A Espanha, por princípio, nunca pode estar de boa-fé: porque o alvo último que prossegue não pode ser confessado, nem explicitados os motivos que a impelem. Não pode a Espanha admitir, com efeito, que o seu propósito é o de sobrepor a geopolítica à geoestratégia da Península. Quando o alcançar, sabe que desaparecerá Portugal.
     Franco Nogueira, Juízo Final, 1993.


A frase do ano


Público
27/12/2003

Jorge Sampaio, Presidente da República (sobe)

A atribuição do indulto à mulher que no Tribunal da Maia foi condenada por ter feito um aborto a outra foi um acto de coragem política de Jorge Sampaio, mas também uma prova de bom-senso, diminuindo a tragédia de uma mulher que se viu tratada como criminosa ao exercer uma profissão comum na sociedade portuguesa, a de parteira. O Presidente mostrou, sobretudo, uma enorme frontalidade e coerência e deu uma bofetada de luva de pelica no Governo e na maioria política que o sustenta e na hipocrisia reinante em Portugal que busca argumentos gastos e desajustados para manter o injustificável cancro social do aborto clandestino.


     Independentemente do que se pense sobre o aborto, seja-se a favor ou contra, este texto merece o prémio da frase do ano, senão mesmo do século.

     Vamos por partes:

     1.º - O gesto do Presidente da República Portuguesa de indultar uma mulher acusada de vários crimes, entre os quais o de aborto, é considerado pelo Público como um «acto de coragem política» e «prova de bom-senso». Com quase todos os partidos políticos a exigirem a descriminalização do aborto, não tendo nada a perder em termos eleitorais a nível pessoal já que não se pode recandidatar a novo mandato presidencial e podendo o seu partido ganhar alguns milhares de votos com esta temática, não se vê onde esteja a coragem. Alguns poderão até ver nisso mero oportunismo político, como o próprio texto do Público permite vislumbrar a propósito da «bofetada de luva de pelica no Governo e na maioria política que o sustenta »... Quanto ao alegado «bom senso», estando neste momento a ser julgados vários crimes de aborto, sendo o Presidente da República o supremo magistrado da Nação e o garante da Constituição, só um cego não vê no acto de Jorge Sampaio uma objectiva, embora indirecta, intromissão nas próximas decisões judiciais que vão ser produzidas. Quem se lembrar das considerações feitas na sentença do Tribunal da Maia não terá dúvidas sobre isso. Veremos quando for proferida a sentença...

2.º - Ou o Público está mal informado ou está a mentir e a fazer demagogia quando fala na condenação de uma mulher «por ter feito um aborto». Transcrevendo um excerto de hoje do Diário de Notícias, «Maria do Céu Ribeiro foi condenada, em 2002, a oito anos e meio de prisão pelos crimes de aborto e tráfico de estupefacientes agravados, falsificação de documentos e peculato». Ainda que a prática de aborto não estivesse tipificada no Código Penal como ilícito criminal, a referida pessoa seria condenada pelos restantes crimes, pense-se o que se pensar sobre o aborto...

3.º - O seguinte excerto mereceria o "Prémio Ignóbil": ...«diminuindo a tragédia de uma mulher que se viu tratada como criminosa ao exercer uma profissão comum na sociedade portuguesa, a de parteira». Mais uma vez, pense-se o que se pensar sobre o aborto, Maria do Céu Ribeiro não foi condenada por exercer a profissão de parteira... E além disso, em todos os países do mundo a função das parteiras é ajudarem as crianças a nascer e não a praticar abortos, pense-se o que se pensar sobre o aborto... Que se saiba, nunca em Portugal em oito séculos de história alguém foi condenado por exercer a profissão de parteira... E na história universal só me recordo de Sócrates ter sido condenado à morte por ser parteiro, não de crianças como sua mãe, mas de ideias, através da maiêutica. Mas mesmo neste caso, o argumento de quem o condenou a beber cicuta foi o de corromper a juventude, ao semear a liberdade de pensamento...

4.º - Por fim, pense-se o que se pensar sobre o aborto, não parece ser objectivo dos que são contra o aborto «manter o injustificável cancro social do aborto clandestino», a não ser talvez os que fazem dessa actividade um modo de vida. Além de demagógica, tal afirmação é absolutamente injuriosa para todos os que são contra o aborto e especialmente para aqueles que pretendem actuar sobre as suas causas em vez de ilusoriamente pretenderem mascarar os seus efeitos com falsas e hipócritas soluções... Para além disso, qualquer pessoa minimamente informada sabe que nos países onde está descriminalizada a prática do aborto e estes actos se praticam em hospitais públicos e/ou em clínicas privadas, continua a haver aborto clandestino, seja por razões económicas seja porque as mulheres que pretendem abortar muitas vezes, por razões familiares e sociais, preferem que o acto seja praticado longe de qualquer conhecimento público que, apesar da privacidade que possa ser garantida, acaba sempre por se disseminar nos meios em que vivem.

     Enfim, pense-se o que se pensar sobre o aborto, há textos que pela sua falsidade e demagogia não podem deixar de ser completamente reprovados, especialmente quando publicados num dos principais diários nacionais...

     Agora que se volta a falar na questão do aborto e num novo referendo, seria muito proveitoso que se reflectisse sobre a constitucionalidade das soluções legais que estão a ser propostas. Sabemos bem como é provido e como funciona o Tribunal Constitucional. Por isso, há muitas coisas que não nos espantaram no passado e não nos espantarão no futuro. Para se ter uma ideia sobre a complexidade do assunto, sobretudo para os que ousam falar dele e emitir opiniões sem terem quiasquer habilitações para o efeito, leia-se o Acórdão N.º 288/98 e especialmente as declarações de voto de vencido no final do texto.





Pedido de Natal




sexta-feira, dezembro 26, 2003

O Natal de antigamente em Olivença





     Quando se aproximava a «Noite do Menino» ou do Natal, com sonhadora e doce poesia pastoril, aquela gente, fechada nos velhos muros das muralhas dionisianas ou manuelinas da vila, vivia numa alegria infantil que inundava a alma de toda a população, lembrando-lhe os que partiam em busca do novo mundo, pela velha porta de Santa Quitéria ou Conceição (8), mais tarde chamada «Porta Nova», enquanto outros emigravam da prisão, saltando o Guadiana...
     Ninguém comia sozinho nessa noite de amor, por mais só que fosse no mundo da sua desventura (9), todos se juntavam em volta da mesa e os serviçais faziam roda entre si, para não estarem isolados uns dos outros, como se fosse uma cadeia de ternura que os juntasse nessa noite de consoada.
Os alguidares estavam repletos de pitéus saborosos, cujos temperos exalavam aromas e, quando o lume apertava na sua cozedura, o apetite saltava como se todos fossem gastrónomos que só viviam para comer essas maravilhas, feitas e realizadas pelas mães e filhas do nosso Alentejo, desde o bolo pôdre ao pinhonate em que a água-mel fazia mais doces as massas doiradas das farinhas.



     Todo o santo dia as mulheres passavam as horas na cozinha e dentro das casas havia um perfume que fazia apetite e água na boca ao passar-se diante do portal de qualquer casa da rua mais pobre!
     A ceia era alegre e em volta da mesa, coberta de alvas toalhas de linho que anualmente se usavam nestas festividades, o dono da casa, com o direito de chefe, benzia os pratos e dava começo ao jantar, cuja ementa tinha muitas variedades, desde a sopa aromatizada de hortelã até à carne assada de vaca ou de porco, das matanças recentes. Vivia-se em alegria, graças a Deus.
     As visitas, que se juntavam à roda da mesa, aguardavam o seu momento e, ao terminar, tudo ia para a sala onde continuava o repasto: saboreavam-se os bolos de mel, de ovos, de massa folhada e o chamado massapão, «toma tu», cortado em fatias com aroma a erva doce; e, para desenjoar, bebiam-se vinhos generosos que punham os rostos vermelhos como pimentos rubros e davam alegria aos olhos !
     O café e o copinho de aguardente tomavam-se junto da lareira; nos corredores cantavam e dançavam os pares, enquanto outros contavam anedotas e se descobriam noivados.



     A alegria parecia não ter fim, as azinheiras em brasa consumiam-se lentamente, em louvor do Menino Jesus e não havia garganta que ficasse muda ante a alegria do nascimento do Redentor!
     A guitarra, o harmónio, os ferrinhos e a azabumba ressoavam em melopeias da Idade Média; e quando a madrugada se aproximava, alguém deitava uns goles de água sobre as brasas e tudo acabava porque o Menino Jesus fizera... uma graça!
     Trocavam-se as despedidas, aconchegavam-se os grossos abafos, os homens embrulhavam-se nos chales-mantas ou nos casacões forrados de pele de borrego e os criados levavam uma lanterna dependurada num chuço, abrindo passo aos patrões que, voltando para casa, iam continuar a «Noite do Menino» nos arranjos das surpresas para seus filhos.
     Na manhã seguinte, em todas as casas era enorme a alegria. A pequenada assaltava as lareiras em busca das prendas, abria as janelas das sacadas, rebuscava os baixos da cama e em toda a parte havia uma lembrança de Jesus que suas almas puras de arminho agradeciam, cheias de fervor, mostrando aos progenitores a alegria da sua ventura!
     Estas notas pálidas e sem fulgor de valia, recolhidas ligeiramente, servem apenas para mostrar que, em 1840, era assim que se educava e divulgava a fé dos homens e a paz de Deus no velho e portuguesíssimo burgo de Olivença.

________________________


(8) Caminho de Badajoz.
(9) Antigamente havia todos os anos «consoada» na Santa Casa onde, depois da missa, se celebrava a cêa da mêa nôte, conforme se vê nos livros de assentos da mesma e o afirma Sebastião Rodrigues, amigo pessoal do provedor Lopo da Gama Lobo.




(Fonte: Ventura Ledesma Abrantes, O Património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença, Lisboa, 1954, pp. 434-435).


quinta-feira, dezembro 25, 2003

Um Postal para os Oliventinos


     Neste dia de Natal, recordo um comovente postal enviado por uma oliventina, a 23 de Dezembro de 1958, ao Presidente da Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença, o Professor Doutor José Francisco Ramos e Costa. Nesse mandato havia sido eleito para Presidente da Assembleia Geral o General Humberto Delgado.





     Agrafada ao postal, na Pasta 20 do Arquivo do G.A.O., com o n.º 131, está uma interessantíssima carta, da mesma oliventina, datada de 11 de Agosto de 1957.

     Nessa época, era habitual o Grupo dos Amigos de Olivença auxiliar burocrática e financeiramente a aquisição de bilhetes de identidade e de passaportes aos oliventinos que recusavam a nacionalidade espanhola e queriam ser livres no seu próprio País, mesmo que para isso tivessem de passar para o lado de cá do Guadiana.

     Porque conhecemos bem os métodos persecutórios usados em Olivença, tanto no passado como no presente, e receando que a pessoa em causa possa ainda ter familiares do lado de lá de Portugal, ocultámos a sua identidade...





     A todos os Oliventinos, desejamos "Boas Festas e Feliz Ano Novo".


quarta-feira, dezembro 24, 2003

Um Santo Natal para todos


Presépio do Convento do Sagrado Coração de Jesus
da autoria de Machado de Castro



Uma excelente prenda


     Para quem ainda não concluiu a compra dos presentes de Natal, tem aqui uma interessantíssima sugestão. Interessantíssima porque um livro é uma das melhores prendas que se pode dar e receber. Mas, interesantíssima sobretudo porque este livro, acabado de sair, trata de um dos episódios mais extraordinários da História de Portugal, mas também de um dos acontecimentos da nossa gesta colectiva mais desconhecidos dos portugueses.

     Alguns silêncios da história são ensurdecedores. Este é absolutamente estrondoso.

     Falamos do livro "Conquista de Madrid", de João Vieira Borges, editado pela Tribuna da História, na sua "eloquente" colecção Batalhas de Portugal.

     Aqui fica a imagem da capa e o texto de apresentação da contracapa.



A 28 de Junho de 1706, um Exército aliado de 14.700 portugueses e 4.200 anglo-bolandeses, sob o comando do 2.° Marquês das Minas, D. António Luís de Sousa, entrou em Madrid ao fim de cerca de 500 km percorridos e ao longo de 3 meses de operações em terras de Espanha. Nesta Campanha, foram feitos mais de 8 mil prisioneiros e capturadas mais de 100 peças de artilharia, nos vários combates que tiveram lugar contra as forças franco-espanholas comandadas pelo Duque de Berwick.

A campanha do Marquês das Minas realizou-se no âmbito da Guerra da Sucessão de Espanha, que teve lugar entre 1701 e 1714. O Portugal de D. Pedro II, que fazia parte da Grande Aliança, conjuntamente com a Inglaterra, Áustria e Holanda, nesta ocupação de Madrid fez aclamar Rei de Espanha o Arquiduque Carlos de Habsburgo. Posteriormente, o candidato Filipe de Anjou, neto de Luís XIV de França, viria a triunfar e a inaugurar a dinastia Bourbon que ainda hoje reina em Espanha.

Esta obra recorda e repõe a verdade sobre uma campanha silenciada, mas ao tempo tão celebrada na Europa, que fez respeitar a então recentemente reconquistada independência de Portugal, e foi garante de um povo que continuou a afirmar-se entre as potências do Mundo de setecentos.



Aznar e o Pai Natal





terça-feira, dezembro 23, 2003

Falemos de Olivença


     No subtítulo de "Portugal e Espanha", falamos de «um Portugal Íntegro e Inteiro». Esse "Portugal Inteiro" é obviamente o Portugal tal como o define o Art.º 5.º da Constituição da República Portuguesa e como resulta do Direito Internacional: um Portugal que inclui Olivença, como sua parcela inalienável!

     Falemos, então de três breves tópicos sobre Olivença:

1.º - No passado dia 12 de Dezembro, transcrevemos aqui um texto da mais recente obra do Professor Diogo Freitas do Amaral, intitulada “Ao Correr da Memória”, na qual se descreve um acordo celebrado entre Franco e Salazar, não cumprido pelo Generalíssimo como é habitual nos governantes espanhóis, para a ocupação de Olivença pelo Exército português, durante a Guerra Civil Espanhola. No dia 14 de Dezembro, na TSF, no programa de Carlos Pinto Coelho, "Directo ao Assunto", este jornalista, o historiador António Costa Pinto, o jornalista jornalista José Carlos Vasconcelos e o Professor Diogo Freitas do Amaral debateram este livro e um dos pontos tratados foi aquele aludido episódio desconhecido da história da Questão de Olivença. O programa pode ainda ser ouvido. É todo ele importantíssimo para quem se interessa pela história política portuguesa do presente e das últimas décadas. A parte relativa a Olivença começa por volta dos 29 minutos da emissão. Para ouvir, basta visitar o seguinte endereço e clicar no icon em forma de altifalante:

http://tsf.sapo.pt/online/primeira/interior.asp?id_artigo=TSF136466

     As declarações do Professor Diogo Freitas do Amaral são muito relevantes e irão direitinhas para o meu livro de memórias sobre Olivença que um dia espero escrever e publicar.

     Mas impõem-se dois inevitáveis comentários ao que disse mesmo no fim e que deslustraram um pouco a entrevista quanto a esta temática:

a) Olivenção não é assim tão pequenina como disse: 600 quilómetros quadrados não são de desperdiçar. Se o fossem, a Espanha há muito que teria devolvido o território, pois os seus governantes sabem muito bem quanto é completamente infundada juridicamente a sua supremacia sobre Olivença, a ponto de por várias vezes terem equacionado a sua devolução. Mas, ainda que Olivença tivesse apenas um metro quadrado, situando-se o problema no âmbito dos princípios jurídicos e dos valores morais, o nosso direito e sobretudo o nosso dever a reivindicarmos o que nos pertence são matérias indisponíveis e indeclináveis. Um simples metro quadrado valeria aqui o mesmo que um continente inteiro!... Mas falamos de cerca de 600 quilómetros quadrados...

b) Este insigne professor visitou muito patrioticamente Olivença, mas diz que a única coisa portuguesa que viu foi um brasão de armas na torre de menagem do castelo... Pois, humildemente, convido-o a voltar a Olivença. É que, todos quantos lá vivem e todos os forasteiros que visitam a "Vila" só lá encontram coisas portuguesas, exceptuando uma duvidosa "gare" de autocarros, as piscinas municipais e pouco mais... Será que foi a Olivença e não viu o castelo, a torre de menagem, a cerca dionisina, o museu etnográfico, a Igreja de Santa Maria do Castelo, a Igreja da Madalena, a Misericórdia, o Convento de São João de Deus, o Convento de São Francisco, o Palácio dos Duques do Cadaval, o Quartel dos Dragões de Olivença, a fortificação seiscentista, o casario alentejano de quase todas as ruas, cinco aldeias ao redor, centenas de "montes" alentejanos, várias atalaias dispersas pelo termo municipal, etc., etc., etc.?

2.º - Em finais de Agosto estoirava uma "bomba". A CIA, no "World Factboock", incluía Olivença na lista dos litígios internacionais. A agência de serviços de informação americana limitou-se a dizer que esporadicamente Portugal tem suscitado a questão. Mas, em Olivença e em Espanha, as autoridades ultranacionalistas e sectárias ridicularizaram a CIA e crucificaram os E.U.A., alegando que a instituição americana comparara o caso de Olivença à faixa de Gaza ou a Caxemira. O escândalo passou em todos os órgãos de comunicação social espanhóis, incluindo jornais, revistas, rádios e televisões. Desde a Índia à Noruega o assunto foi falado, escrito e televisionado. Os dirigentes de Olivença apareceram em público como se desconhecessem existir qualquer diferendo entre Portugal e Espanha. Mas basta visitar a página oficial do Ayuntamiento de Olivenza para se ver o destaque que dão ao litígio fronteiriço na secção de História e para se confirmar que alguma anomalia existe naquelas paragens. De outro modo, não gastariam uma linha sobre o assunto, não gastavam o seu precioso dinheiro numa historiografia propagandística da soberania espanhola, nem dispendiam tantas energias em promover encontros "internacionais", luso-espanhóis, exactamente numa terra que o Estado português não reconhece como espanhola.
Depois da CIA, agora foi a vez da revista "Geo. Una nueva visión del mundo", num artigo sugestivamente intitulado "Raya lusoespañola. Unidos por la frontera", a imprimir em letras grandes "Olivenza es hoy el único territorio en disputa". Desta vez as autoridades espanholas ficaram caladinhas!... Se fizeram algumas das suas habituais chantagens e ameaças sobre a comunicação social, não transpirou nada para o grande público, embora haja sempre algumas pessoas que saibam alguma coisa do que se passa, mesmo quando aparentemente não se passa nada...



3.º - Segundo noticia hoje o Correio da Manhã, Letizia Ortiz tem leitura para o Natal. Força! Tem muito que ler. E se não conhecia a hipocrisia da Família Real a que vai pertencer, verá quanto é infinita a cavilosidade, a mentira e a perfídia da Monarquia Espanhola... Na altura em que Olivença foi arrebatada a Portugal, a Espanha nem sequer levou em consideração o facto de o Príncipe Regente estar casado com uma infanta espanhola. E quando pouco depois duas infantas portuguesas casaram com dois membros da família real espanhola, nem esses laços de parentesco foram suficientes para Madrid cumprir as obrigações que tinha para com Portugal.

Espanha - Fórum olivença oferece prenda

LIVRO PARA LETIZIA




O Fórum Olivença, que luta pela regularização do estatuto daquela vila, decidiu oferecer uma prenda à noiva do príncipe Felipe, de Espanha. Como Letizia Ortiz está a estudar a história das famílias reais europeias e dos países europeus, aquela associação entendeu por bem oferecer um livro sobre a questão da Olivença.

A obra oferecida é a 'Compilação de Elementos para o Estudo da Questão de Olivença', da autoria do embaixador Luís Teixeira Sampayo, editada em 2001, por ocasião do segundo centenário da ocupação de Olivença, com o apoio financeiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Para o Fórum Olivença, a noiva do príncipe Felipe poderá deste modo conhecer em pormenor um dos problemas que afectam as relações entre Portugal e Espanha e que constituem um importante motivo de desconfiança.



segunda-feira, dezembro 22, 2003

Subscrevemos

O REGRESSO DO ABORTO

A barriga é delas, obviamente – e os outros órgãos também. Mas a vida é dele, coitado, e nem sempre elas, dominadas por fraquezas várias, são a melhor defesa para o ser desprotegido que se de- senvolve naquele útero, completamente inocente do cometimento de algum crime a que deva a existência, às dificuldades sociais dos progenitores, às desavenças e egoísmo dos pais, entre outros motivos que lhe podem decretar a morte antes do acto de nascimento.

É preciso, então, que alguém, de forma superior, defenda o valor supremo da Vida.

A Igreja tem-no feito, até aqui sem brechas, e os portugueses pronunciaram-se há cinco anos, em referendo. Hoje, o debate promete voltar à ordem do dia entre uma Esquerda sempre do lado dos prazeres e de uma forma hedonista de entender a condição humana e uma Direita que se deixa atormentar pelas dúvidas e tentar pelo egoísmo.

Estamos perante um combate sempre inacabado no qual os valores são o único refúgio contra o caminho mais fácil e a salvaguarda de que o mundo não se transformará nunca numa selva em que vale mesmo tudo. Claro que não se pode fingir que o problema do aborto não existe e não afecta de forma dramática muitas mulheres, sobretudo elas. Existe, claro! Afecta, obviamente. Por isso, o que está em causa é saber como se resiste à solução da convocação da morte, tornada oficial e assistida, e se ajuda a minorar o problema sem abdicar do essencial: o Direito à Vida.

João Marcelino
Correio da Manhã

21/12/2003

Tributo a José António Saraiva


Editorial do Expresso

     Na península Ibérica verifica-se um fenómeno desconcertante: enquanto certas regiões como a Catalunha e o País Basco conquistam cada vez mais autonomia e até reivindicam a independência, Portugal perde todos os dias uma parcela de poder a favor da Espanha.

     O movimento parece imparável.
     Na semana passada foi a vez da família Vaz Guedes ceder a um grupo espanhol o controlo das empresas que detinha há três gerações.

     Antes tinha sido a família Champalimaud.
     Amanhã será outra qualquer.

     E , pelo meio, centenas de pequenos empresários já seguiram ou irão seguir-lhes o exemplo.

     As empresas nacionais, vão sendo, pois, engolidas por grupos espanhóis, e as decisões sobre o seu destino vão sendo transferidas de Lisboa para Madrid.

     E assim Portugal surge, neste momento, como a região da Península que revela menor vontade de ser independente.

     É conhecida a luta dos bascos, que não hesitam em recorrer ao terrorismo.

     São igualmente sabidas as posições independentistasdo actual governo catalão.

     Portugal, porém, não dá um passo para travar a transferência do controlo da sua economia para o lado de lá da fronteira.

     Por que será?

     Como se explica que outros lutem encarniçadamente pela independência e nós, que a temos, não façamos nada para a defender?

     A verdade é que o nosso nacionalismo amoleceu.
     Perdemos o orgulho nacional - e temos até vergonha de utilizar a expressão.
     Não sabemos ao certo para que serve sermos independentes.
     Chegamos a pensar que seria vantajoso serem outros a governar-nos.

     Criou-se uma dinâmica que será já muito difícil inverter.

     O que se estranha, em todo o caso, é que o Presidente da República e o Governo não façam nada para contrariar este fenómeno.

     Enquanto Aznar reúne regularmente com empresários e banqueiros para a definição conjunta de linhas estratégicas, Jorge Sampaio e Durão Barroso submetem-se às «leis do mercado» sem um gesto de revolta.

     Não há em Portugal uma única iniciativa por parte do poder político no sentido de se definir um rumo, de se estabelecerem linhas de orientação, de se articular uma estratégia.

     Não se trata da tutela do poder económico por parte do poder político: trata-se de definir objectivos comuns e reflectir sobre o modo de os alcançar.

     A verdade é que boa parte dos nossos empresários não tem qualquer noção sobre o caminho a seguir, gastam-se ingloriamente energias em operações erradas e fazem-se negócios ruinosos como o da Jerónimo Martins na Polónia.

     No meio desta desorientação geral, não é de estranhar que muitos se decidam pela rendição e pela entrega do controlo das suas empresas aos espanhóis.

     Claro que os liberais puros não vêem nisto qualquer problema.
     O importante, para eles, é que o mercado funcione.
Já a família Vaz Guedes talvez não diga o mesmo dentro de algum tempo.
     Quando Diogo Vaz Guedes começar a ir a Madrid explicar aos espanhóis as opções que quer fazer e os espanhóis começarem a dizer-lhe que não, ele perceberá uma coisa básica: para mandar é preciso deter o poder.
     Nas suas empresas, ele perdeu-o.

     Qual será a família que se segue?

20/12/2003


CGD perde Atlántico para Banco Sabadell


A Caixa Geral de Depósitos (CGD) perdeu o concurso para a aquisição da maioria do capital do Banco Atlántico para o Banco Sabadell, instituição catalã e parceira estratégica do Banco Comercial Português (BCP), confirmaram hoje as instituições bancárias.

O Arab Banking Corporation e o Banco Bilbao Vizcaya, os dois accionistas do Atlántico, chegaram a um acordo através do qual o Banco Sabadell se compromete a lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a totalidade do Atlántico, a um preço médio de 71,79 euros por acção, o que avalia a operação em 1,5 mil milhões de euros.

De acordo com os comunicados hoje emitidos pelos bancos espanhóis, o ABC e o BBVA comprometem-se «de forma irrevogável» em aceitar a oferta do Sabadell, num negócio em que vendem as suas posições respectivas de 68,46% e 24,37%.

O Banco Atlántico «tem um futuro mais prometedor como parte de um grupo financeiro de primeira linha como é a do Banco Sabadell», afirma um comunicado do Atlântico.

A operação está sujeita às aprovações do Banco de Espanha, da Comisión del Mercado de Valores (CNMV), das autoridades da concorrência e da Direcção Geral de Fundos e Pensões.

O presidente do ABC, Al-Kindi, assegurou que esta operação «permite ao ABC focar-se onde é mais forte e dirigir recursos para os nossos mercados estratégicos», noticiou ontem o jornal espanhol «El Mundo».

O Banco Sabadell é accionista estratégico BCP, detendo 3,17% do capital da instituição liderada por Jardim Gonçalves. A CGD tem uma posição ainda maior no BCP [Cot], ao controlar 6,37%.

Em comunicado ontem emitido, a admnistração da CGD defende que «emborase tratasse de uma aquisição de significativo interesse estratégico, o valor oferecido enquadrava-se no estrito limite dos parámetros de avaliação definidos» pela entidade pública portuguesa, «que permitiriam criar valor para o accionista, objctivo primordial da instituição».

No entanto, «o grupo CGD, que detém uma posição no mercado financeiro espanhol através do Simeón, reafirma a sua intenção de prosseguir uma estratégia de consolidação e crescimento nesse mercados, como tem vindo a ser sucessivamente reiterado», acrescenta a mesma fonte.


(Fonte: www.negocios.pt)


domingo, dezembro 21, 2003

Um livro nada natalício para o Natal


     O tema nada tem de natalício. Tem mesmo mais a ver com o Gólgota do que com Belém: com o gólgota nacional, com a cada vez menos lenta morte de Portugal, habilmente perpetrada por Madrid e pelos seus agentes na nova província da Grande Castela - agentes que se dão ao despudor de usarem um bilhete de identidade nacional e que ocupam os mais altos postos daquilo que foi um Estado Livre e Independente.

     Ao que o autor do livro diz, só acrescentaria que urge empreender um novo 1.º de Dezembro e defenestrar os muitos Miguéis de Vasconcelos que consporcam o Terreiro do Paço.

     Como não faria melhor, deixo a apresentação que deste livro fez Nicolau Santos:

Espanha Inc. ou a invasão


     O INELUTÁVEL processo de expansão espanhola «está a desenrolar-se com a mais descarada complacência das elites políticas, culturais e empresariais portuguesas e com a indiferença militante de todos os portugueses».

     A afirmação está contida no livro A Invasão, do jornalista Rui Camarinha, (lançado dia 15 de Dezembro) na Galeria da Cidade (Wellcome Center), no Terreiro do Paço, com a chancela da editora Letras Gordas.

     Camarinha faz o mais exaustivo levantamento conhecido das cerca de 3000 empresas espanholas a actuar em Portugal e das 14 mil com negócios com o nosso país e daquilo que está por detrás das suas estratégias.

     «Diz-se que a Espanha é mais importante para Portugal do que
este para aquela. Não é verdade. Diz-se que Portugal está a vender para Espanha. Não é tanto assim. O que as empresas espanholas querem é comprar em Portugal empresas de produtos não transaccionáveis, porque os outros constituem o seu objectivo de vendas
», afirma Camarinha.

     O jornalista chama a atenção, aliás, para um facto que tem sido muito pouco evidenciado: «A Espanha investe em Portugal cada vez menos e vende cada vez mais. Portugal compensa a sua debilidade ou falta de competitividade para vender em Espanha com uma tendência crescente no investimento, a ponto de ser já maior o investimento de Portugal em Espanha do que o inverso».

     Camarinha critica a «inevitabilidade» da integração ibérica, defendida pelo primeiro-ministro, Durão Barroso. «Porquê esta rendição? Pois não estamos todos integrados economicamente na Europa? Acaso se fala da integração económica na Escandinávia ou integração anglo-irlandesa ou belgo-germânica?».

     O autor lembra que na evolução política em Portugal é recorrente o problema da sobrevivência, sempre marcada por factos que tomam a sua independência delicada, frágil ou sujeita a alianças quase sempre voláteis ou oportunistas. Refere, depois, o economista João César das Neves, para sustentar que Portugal nunca se afirmou pelo poder das suas empresas. «O que nos manteve foi antes a identidade cultural e a força do povo, normalmente contra a atitude e os interesses das elites dirigentes». Camarinha defende que a invasão espanhola começou com o acentuar do desequilíbrio da balança comercial do lado português, com o plano hidrológico espanhol e com o caso Totta-Banesto. «A Espanha está a conseguir por via económica o que nunca conseguiu pela via militar».

     O jornalista chama a atenção para a existência da Espanha Inc., «um potentado económico controlado a partir de Madrid e onde o Estado tem, de facto, poder específico, independentemente de controlar ou não o capital da empresa». E é esta Espanha Inc. que está a caminho de controlar Portugal - se não soubermos encontrar, como no passado, alianças que o evitem.

Expresso
13/12/2003


sábado, dezembro 20, 2003

A propósito de Fernanda de Castro


     Lembrando a data da morte da poetisa Fernanda de Castro, aproximando-se o nascimento do Menino e estando na actualidade a ser debatida a questão do aborto, aqui fica o seu "Poema da Maternidade".




Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!


É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...


Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,


Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...


Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?


Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...


Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.


Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?


Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...


Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...


Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...


Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!


Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!



Tributo a José Adelino Maltez


     Com a honrosa autorização do autor, publicamos em Portugal e Espanha um brilhantíssimo artigo do Professor José Adelino Maltez, que para além de ser um dos melhores especialistas portugueses em Ciência Política, é principalmente um dos professores universitários que mais pensa e sente Portugal.




A Ameaça Castelhana e a Oligarquia das Bestas


     Qualquer observador isento consegue notar que, no último quartel do século XX, Portugal passou, do sonho imperial, à claustrofobia do pequeno quintal europeu, com esta sensação de nos termos minimizado como um "pequeno Estado", sempre em risco de se tornar mais uma província do Estado espanhol e de se diluir num grande espaço liderado pela locomotiva franco-alemã.

     Na verdade, cada europeu passou a estar dependente de dois centros: o do Estado clássico e o do novo pólo supra-estadual, para onde se vai dando a transferência directa de poderes tantos das velhas comunidades, pela via da cooperação política, como dos próprios cidadãos, pela via da integração política, surgindo novas lealdades e expectativas, com os consequentes conflitos de sonhos e frustrações.

     Emergiu assim uma unidade nova, sem Papa, sem Império e sem totalitarismo, misturando "a hegemonia dos mais fortes" com "o consentimento real dos menos fortes", segundo as proféticas palavras de Raymond Aron. Uma tensão entre as tendências centrípetas, que apelam para a associação de povos e para a soberania divisível, em nome de um novo pólo, e as resistências centrífugas, que preferem a associação de governos, a soberania indivisível e a regra da unanimidade.

     Infelizmente, no plano doméstico, talvez ainda permaneça aquilo que Fernando Pessoa qualificou como aquela atávica "oligarquia das bestas" que marca os nossos sucessivos devorismos, sendo impossível mobilizar a memória dos setembristas de Passos Manuel para que permanentemente se denunciem tanto os Cabrais como os seus bastardos fontistas, mesmo que as inevitáveis Convenções do Gramido nos continuem a condicionar.

     Logo, os portugueses que não são meros "ovençais" das ministeriais figuras, os que não querem continuar "bonzos", entre "endireitas" e "canhotos", como se direita e esquerda fossem posições ontológicas, só passíveis de benzeduras teológicas, têm de continuar a lutar contra todos os despotismos.

     Só os que querem ser cegos, surdos e mudos é que não reparam na circunstância das nossas oligarquias instaladas terem perdido a vontade de independência nacional. De outro modo, no Congresso da Justiça, ter-se-ia discutido o papel das multinacionais do direito como conselheiras privadas dos negócios de Estado, apesar dos muitos visíveis periscópios o denunciarem. De outro modo, perceberíamos que as crescentes compras do capital castelhano têm a ver com a crescente independência da Catalunha e do País Basco, hábeis na navegação nos mares confusos do europeísmo e da globalização, e que está próximo um 1640 ao contrário, com a cobertura dos novos senhores do mundo.

     Só quem nada percebe de grupos de pressão e de grupos de interesse é que não entende o processo de actuação dos serviços secretos estrangeiros em Portugal, onde, em vez dos mitificados espiões, opera a simplicidade da "pay list", onde se acantonam intelectuais corruptos, professores vendidos, gestores partidàrios à procura de financiamento não registável ou rapazinhos de província que, chegados à classe política, depressa são afogados pela lisonja da diplomacia do croquete.

     Para cúmulo da confusão, alguns dos mais destaques agentes da compra do país são os mesmos que assumem publicamente o paradigma do patriota, do anti-corrupto e do intelectual impoluto. Nas águas turvas do negocismo e da política, o crime continua a compensar. Só que a maioria dos portugueses talvez tenha, como preço, o não ter preço.

     E pode acontecer que um "anticomunista primário", como o subscritor destas linhas, se veja obrigado a subscrever as conclusões de um recente artigo de Miguel Urbano Rodrigues, publicado no "Avante": "o exemplo de firmeza, coerência, coragem e lucidez dos nossos compatriotas que há seis séculos tornaram possível a vitória de uma grande revolução democrática e nacional pode e deve ser um estímulo na luta contra a ameaça à soberania nacional que acompanha a progressiva colonização do país pelo capital espanhol.

     Aquilo que não conseguiu pela força das armas, tenta a Espanha de Aznar e das transnacionais obtê-lo agora pelo poder do dinheiro. A Resistência a esse projecto imperial anuncia-se como um dos maiores desafios que o povo de Portugal enfrenta neste início do século XXI".



Para o Ministro da Economia e restante "Governo"


     Mudam os governos. Revezam-se no poder os diversos partidos. Mas Portugal continua à deriva, como barco sem leme nem timoneiro, sem projectos nacionais, sem objectivos estratégicos, mas com um rumo certo: o seu desaparecimento como Estado Livre e Independente e a sua transformação em província espanhola ou em mera região europeia...

     Já é grave os governos não fazerem o que deveriam fazer. Mais grave ainda é fazerem exactamente o contrário do que o interesse nacional exigiria. Mas como se estas desgraças não chegassem, os governos em Portugal, além de agências de emprego para os amigos do partido e centros de reabilitação para indivíduos de passado duvidoso, são um total estorvo para quem pretende promover o desenvolvimento nacional.

     Como não existe qualquer planeamento, desde o urbanismo ao sistema educativo, desde a saúde à investigação científica, e como já está quase tudo privatizado, incluindo as funções tradicionais do Estado, de que nos serve gastarmos dinheiro a sustentar a corja de políticos que nos desgovernam e nos arruínam? Se deixasse de haver governo em Portugal, fosse de que partido fosse, ninguém daria por falta dele. Ou talvez até se desse conta da sua ausência, porque deixava de haver tantos obstáculos ao desenvolvimento que cidadãos individuais, associações e empresas tentam promover e não haveria tantos Miguéis de Vasconcelos a vender a Pátria ao estrangeiro...

     Fica aqui um bom (ou mau) exemplo:

Diogo Marques
ameaça mudar para Espanha


A Diogapor, empresa de Ourém "líder na inovação dos processos e sistemas de pintura de construção civil", apresentou este mês "mais uma inovação mundial': Trata-se de um sistema de pintura com caracteristicas térmicas e acústicas, que tem como área de utilização paredes e tectos em divisórias ou alvenarias de casas habitacionais, escritórios, estúdios, ginásios, hospitais e salas de espectáculo, entre outros locais.

Uma outra área de aplicação "muito importante" e onde os resultados "são impressionantes pela barreira térmica e acústica e redução de condensações" é na pintura de chapas e telhados metálicos em pavilhões, fábricas, polidesportivos e escolas, revela o empresário. Actualmente, a empresa de Ourém e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil estudam uma forma de homologar este novo invento "made in Portugal".

Diogo Marques, gerente da Diogapor, considera que este é um produto "com um enorme potencial" para ser promovido e vendido em todo o mundo, com especial destaque para os Estados Unidos e países nórdicos, pelo que "gostaria de poder contar com um apoio do Instituto do Comércio Externo Português". Um desejo que, admite, se configura como "quase impossível': É que, "face à ausênciade estratégia de apoio à promoção das inovações portuguesas junto dos mercados externos, a Diogapor pondera a possibilidade de transferir a sua sede para o país vizinho, até porque no passado já viu a sua actividade estrangulada pela intervenção do Estado Português, consequência do incumprimento de responsabilidades assumidas e não cumpridas".

Além desta empresa, Diogo Marques é responsável pela Aqualudus, empresa especializada na construção rápida de piscinas.


RSS



"Empresário inovador"

Aos 32 anos, Diogo Marques já recebeu várias distinções e prémios pelo carácter inovador dos seus produtos e projectos. O mais recente foi o prémio "empresário inovador", no âmbito do Projecto FIVE (Fomento da Inovação e Valorização Empresarial), atribuído no início deste mês pelo IAPMEI. Em 1999, foi premiado nos três projectos-empresa apresentados no terceiro Concurso Nacional de ldeias Inovadoras do IAPMEI. E em 2000 obteve três nomeações para empreendedor do ano na Associação Nacional de Jovens Empresários. Venceu a final nacional dos "Prémios Europeus para o Espírito Empresarial", categoria dois, "melhor conceito europeu de pequena empresa". E representou Portugal na final europeia dos prémios europeus para o Espírito Empresarial, obtendo o terceiro lugar geral e vendo eleito o seu projecto como o melhor europeu do sector.
(Fonte: Jornal de Leiria)



This page is powered by Blogger. Isn't yours?