sábado, janeiro 31, 2004

Lembrando o Cardeal-Rei D. Henrique




     Num dia como hoje, a 31 de Janeiro de 1512, nascia em Lisboa, filho de D. Manuel e de sua segunda mulher, D.ª Maria, uma criança que viria a ser o Cardeal-Rei D. Henrique. No mesmo dia 31 de Janeiro, mas do ano 1580, morria em Almeirim aquele que foi o 17.º rei de Portugal e o último da Dinastia de Avis. Suceder-lhe-ia no trono português Filipe II de Espanha, filho de Carlos V e de D.ª Isabel, também filha de D. Manuel.

     A sua biografia é uma eloquente imagem tanto dos divisionismos e intrigas que em vários momentos têm caracterizado a vida colectiva portuguesa como das maquinações a que permanentemente a Espanha deu execução com o propósito de fazer coincidir as suas fronteiras com os limites da Península Ibérica...

     Poucos meses depois da sua morte, nas Cortes de Tomar ver-se-ia - como já no passado se vira - que entre Nós há sempre alguns... prontos a venderem-se ou a vender-Nos em troca de vantagens pessoais e de mesquinhos interesses materiais. É este um dos graves problemas que urge extirparmos antes que sejamos extirpados como Nação Livre e Estado Independente...


País Vasco, Cataluña y España...



El Pais, 31 de enero de 2004



Pensamento do dia




«A Pátria é a minha política»
Passos Manuel,
em carta dirigida a José da Silva Carvalho,
em Novembro de 1836.

Fraga Iribarne



El Pais, 30 de enero de 2004



Achegamento


El toro

     Hispanofilia? Iberismo?
     Há quanto tempo parte das nossas elites, de empresários a literatos, se enamou de Castela?
     Há quanto tempo?
     A outro propósito, já se denunciou «la trahison des clercs».
     O enamoramento é sempre, de certo modo, uma traição.
     Para o último meio século, uma descrição do achegamento, de tantos, à Meseta:



Os Espanhóis e Portugal
José Freire Antunes
Lisboa, 2003

Índice
Prólogo

1
Juan Carlos e lusofilia — 1968-1977
Esquerda: de Azaña a Tierno Galván
Revolução e êxodo para Madrid

2
Cunhalismo e Europa — 1968-2002
Centro: Suárez e Sá Carneiro
Península, Europa e globalização
Redescoberta: de Calatrava a Botín

3
López Rodo e o Opus Dei — 1944-1968
Preparar a sucessão de Franco
Hispanofilia: de Sardinha a Caetano
Entre Salazar e a democracia

4
A "fórmula Laureano" — 1969-1980
Diário Madrid e Caso Matesa
Pinto Coelho: "queda de um anjo"
Pacto Ibérico na área económica
Martins e "touro pelos cornos"
Meio-da-estrada: Estados autónomos
Caetano e a perda da fé católica

5
Problemas e "solução" — 1898-2003
Champalimaud e "chauvinismo"
Ortega y Gasset e a dor da periferia
Os 28 dias do cadete Franco
Império e memórias de Adriano
Saramago e políticas de Estado
A Europa a 25 e o "G-9"

6
Os Borbón e o Estoril — 1946-1977
Herdeiro em reserva, CIA e MI-6
Franco, Salazar e bem-estar
De Gaulle e "irmãos siameses"

7
Delgado: saga e morte — 1965-2000
Americanos e "general Coca-Cola"
Cadáveres em Villanueva del Fresno

8
Balsemão versus Cavaco — 1982-2002
Da política ao primeiro poder
Uma revolução cultural: SIC

9
Unamuno e federação — 1931-1936
A "mão livre" de Afonso XIII
Sardinha e "união espiritual"
Pessoa e "civilização ibérica"

10
Azaña e Afonso Costa — 1931-1936
Hospedado no Palace Hotel
Morte em Cascais: Sanjurjo
Cortesão: "Grandes visões"

11
Plano da União Ibérica — 1931-1936
Horacio Echevarrieta e o submarino
Chilton e o "Kerensky espanhol"

12
Maçonarias e política — 1908-2003
Maçons regulares e irregulares
Maçons e credencial "antifascista"
"Jakin Boor" ou a fixação de Franco
Abolir a fé em "duas gerações"
Carbonária e morte do Rei
Sombras da ribalta: luta partidária
Sidónio Pais, "irmão" Carlyle

13
As lojas da II República — 1926-1936
"União de Nações da Europa"
Marcelino Domingo: "intermediário"

14
Salazar e a Santa Sé — 1922-1936
Crawley-Boeevey, agente de Pio XI
Gil-Robles e a democracia-cristã
Trotsky e a "Rússia do Oeste"
Calvo Sotelo morto pela polícia
Receio: "guerra com a Espanha"

15
O mundo em Espanha — 1936-1939
De Guernica a Guadalajara
Barcelona, Jarama, Albacete
Alto del León e o "Plano L"

16
A agonia de Albornoz — 1936
Nicolás Franco clandestino
Alfredo da Silva, Manuel Boullosa
Alojandro Lerroux e "Lusitânia"

17
A retaguarda de Franco — 1936-1938
"Comédia" em Londres
Salazar e "anexação" da Galiza
Felipe II e "imperialismo"
Colónias e Pacto Ibérico

18
Sufier e utopia imperial — 1939
Pressão de Hitler e Mussolini
Hitler e o "problema português"
Nicolás Franco e o "temor"

19
Franco bloqueia Hitler — 1940-1941
Walford Solby e a invasão inglesa
Noite de drama: 9 de Maio
Queda de Paris e belicismo
Gibraltar: resistir aos alemães


sexta-feira, janeiro 30, 2004

Lembrando Damião de Góis




     Num dia como hoje, a 30 de Janeiro de 1574, morria misteriosamente na sua casa, em Alenquer, Damião de Góis, um dos maiores humanistas portugueses do século XVI e um dos portugueses mais prestigiados na Europa do seu tempo.

     Se a sua obra traduz uma boa imagem da grandeza nacional, as atribulações que padeceu e talvez o modo como morreu constituem um padrão tristemente perene daquela mesquinhez que nos tem acompanhado ao logo de séculos e de que ainda não conseguimos livrar-nos...

     Leia-se aqui uma sintética e interessante biografia de um dos mais preclaros varões que esta Pátria viu nascer.

A verdadeira face do nacionalismo espanhol


     A maioria absoluta electoral do Partido Popular (PP), formação política que é herdeira directa das mais rançosas e agressivas concepções espanholizantes sobre qual e como deve ser o futuro do espaço peninsular, provoca que estejamos a viver na Galiza e no resto do estado espanhol uma crescente pressão sobre a nossa Identidade acompanhada da exaltação dos mais retrógrados pseudo-valores do imperialismo castelhano; saem assim das cavernas, nas que pareciam estar escondidas desde os dias da ditadura de Francisco Franco, atitudes, ideias e pessoas que se sentem fortes, revigoradas pola força do número através da mais sacrossanta expressão da democracia formal, cujo objectivo confesso ou não é emular com a maior diligência o exemplo do regime do ditador: atacar, hostilizar, difamar, menosprezar... e finalmente destruir aquelas identidades "regionais" ou "vernáculas" que não coincidam com a sua ideia uniformizadora do que é "ser un buen espanol".



     Estes grupos e pessoas hoje autodenominam-se democratas, centristas e por vezes não tenhem inconveniente em fazer ostentação do seu cinismo ao proclamarem a sua "defesa de uma Espanha plural e diversa, mas respeitando por acima de tudo a sua unidade". Uma unidade que é uma obsessão para Madrid e pola qual Franco, no seu leito de morte, já pediu permanente vigília ao sucessor por ele nomeado para ser Chefe do Estado, o hoje rei Juan Carlos de Borbón.

     Mas, tais ideias só podem ser realizáveis através da agressão permanente aos outros povos que convivem com o castelhano-espanhol dentro do próprio estado, e assim o testemunha a história dos séculos passados; imprescindível é a colaboração dos meios de comunicação de massas (hoje mais do que nunca de INTOXICAÇÃO de massas) nos projectos do PP; tais meios estão participados e controlados polos interesses das grandes corporações bancárias, unha e carne com o governo de Madrid. quem através dos conhecidos como "Gabinetes de Imprensa" de cada Ministério já espalha as notícias e a orientação que deve ter o seu tratamento em tais meios. Para o que nos interessa nestes momentos, há que sublinhar a importância do Gabinete de Interior, do qual se serve o Ministro para semear a visão oficial, monolítica e inquestionável que prevalecerá nos mass-media sobre qualquer evento, conflito, movimento, partido político, organização cultural, et cétera que ponham em dúvida a espanholíssima ordem estabelecida. A suspeitosa uniformidade, por vezes até léxica, com a que muitos meios informam sobre tais acontecimentos fai evidente que muitos plumíferos ou bustos parlantes outra cousa não são do que as vozes dos seus amos. E tudo sob o disfarce da democracia e do "são patriotismo", cujo cheiro a falso é o mesmo que emana daquelas difamações às que não duvidam em recorrer quando o consideram necessário para desprestigiar às pessoas ou organizações que se oponhem aos seus sinistros desígnios.

     Um exemplo foi a manipulação do ocorrido no Parlamento Europeu aquando da entrega do Prémio Sakarov a Fernando Savater (este representava a ¡BASTA YA!, criada no País Basco na origem para denunciar a ETA e aos seus crimes e que na prática criminaliza como cúmplices de ETA a todos os nacionalistas bascos). Coerente com os seus postulados e os seus artigos ferozmente nacionalistas espanhóis que temos ensejo de ler na imprensa, Savater aproveitou um evento e um lugar solenes para atacar aos nacionalistas não espanhóis nuns termos indignantes e canalhescos, para além de cobardes por não haver ocasião de dar-lhes justa contestação nesse momento. Foi então que vários deputados, entre eles o representante do Bloco Nacionalista Galego (BNG) Camilo Nogueira decidirom não continuar escuitando tais impropérios, ausentando-se da sala. Nos dias seguintes, uniformemente dirigidos desde Madrid, jornais, imprensa e emissoras de rádio criticam acerbamente o comportamento do senhor Nogueira e assinalam que a sua atitude evidencia a simpatia do BNG com ETA. Os argumentos que oferece o eurodeputado por Galiza não interessam, as suas razões (ou a sem-razão vergonhosa de Fernando Savater, um dos mais furiosos porta-vozes mediáticos do espanholismo agressivo que já conhecemos) não interessam nem se valoram: domina o ataque directo, a argumentação ad personam, a tergiversação dos factos e, em suma, fazer impossível toda oposição ao pensamento único imperante. Lembremos que uma mentira mil vezes repetida é uma verdade, ou que a primeira e maciça interpretação de uma notícia pode mais na opinião pública (=opinião publicada) que todos os matizes ou desmentidos posteriores.

     Para não ter que ocupar muito espaço e tempo com esta manipulação que dirigem as autoridades espanholas, assinalemos só outro exemplo mais de degeneração moral, política e intelectual. É uma frase que pronunciou Jaime Mayor Oreja, umas palavras terríveis no seu significado político real: "Quantos mais mortos haja, menos nacionalismos": referida ao conflito no País Basco. É suficientemente eloquente da atitude e pensamentos tétricos de uns dirigentes aos que não parecem preocupar demasiado os assassínios de ETA, pois servem de pretexto para que o governo espanhol poda atacar aos nacionalismos defensivos, que reivindicam o respeito às Identidades não castelhanas dentro do estado espanhol. Sobre todos eles cairá o excremento ideológico dos patrioteiros espanhóis, dos nostálgicos da Espanha "una, grande y libre" e dos que no fundo do seu ser sonham com o dia em que na Península só haja uma nação, língua e cultura: a castelhano-espanhola. Esta maré já chegou à educação, na que se pretende introduzir pola via da imposição um regresso aos obsoletos conceitos históricos vigentes antes de que a ditadura militar deixasse o seu sítio à oligarquia espanholista disfarçada de parlamentarismo democrático, conceitos nos que Espanha, sempre sinónimo de Península Ibérica, já existia como uma unidade 2000 anos atrás.



     A Identidade de Galiza, a sua Língua, Cultura e maneira de ser são um dos objectivos a destruir por estes autodemocratas, incarnação actual daquela mentalidade que outrora esmagou povos e culturas, quer na própria península, quer no resto do mundo. E não esperemos melhor destino para Portugal, embora sejam outros os meios a utilizar, mais ligados à penetração económica que à directa acção política. Imediatas serão (são já) a penetração mental, com todo género de subtilidades e melindres, que fará o mesmo efecto letal de um veneno lento.

     Hoje em dia, a situação da nossa Língua e Cultura em Galiza é a cada vez mais crítica, a castelhanização das novas gerações é especialmente evidente no âmbito urbano e, para aquelas mentes conscientes do que ocorre ao seu redor, falar da extinção do nosso Ser comum em Galiza não deveria ser julgado como uma utopia negativa: a deturpação ortográfica e léxica do chamado "galego normativizado", isto é, do feito oficial polas autoridades da autonomia espanhola com grafia e morfologia castelhanas, vai preparando o caminho para esse triste final. E tampouco as estratégias do nacionalismo galego institucionalizado semelham oferecer nem resistências nem alternativa a esta situação: simbólico é ler nalgumas publicações a ele ligadas, já no frontispício do exemplar, as palavras "Galiza" e a sua versão castelhana "Galicia", talvez algo mais do que uma anedota e sim um exemplo de desorientação e de não saber que país queremos e como se deve chamar.



     Mais não deve ser necessário para que neste espaço comum unido polo Minho surja a união dos "bons e generosos" da que falou o grande poeta Eduardo Pondal no Século XIX; e esta união deve conduzir a um trabalho comum que supere desconhecimentos, egoísmos e vetustas e apodrecidas fronteiras mentais (lembremos a aqueles nacionalistas portugueses cegos admiradores de Franco e dos seus herdeiros ideológicos). Só assim poderemos nem só resistir a este espanholismo culturicida, mas também atacar os seus alicerces ideológicos, fazendo-o com aquele espírito da "Geração Nós": o do direito e dever morais que temos para defender a nossa Identidade, nem só desde um horizonte fechado e etnocêntrico mas sim desde o da contribuição para a preservação da Identidade dos povos e do seu direito a disporem de si próprios sem interferências alheias.



Outras reacções à "Ibéria", de José Manuel de Mello


     Já devidamente arquivados, podem ler-se os artigos:


«É já mais fácil ir a Madrid que ao Porto»...




     Qual pitonisa no Santuário de Delfos, Anaximandro, nas Notas Verbais, deixa-nos um enigmático oráculo sobre Carlos Tavares.



     Para quem não disponha dos excelsos poderes de interpretação de vaticínios e não se possa socorrer de algum mago com faculdades divinatórias, talvez a veneranda lição do passado seja bastante para vislumbrar o obscuro porvir ...

     Não sei se Carlos Tavares saberá que nós sabemos que já era tempo de os Portugueses saberem com quem estão metidos...


Carod Rovira, a hipocrisia e erros vários

     
O erro do líder da ERC não foi o facto de ter ido a uma reunião com a cúpula dirigente da banda terrorista e independentista ETA, mas ter mantido o facto no mais absoluto secreto, não informando nem ao presidente catalão e sócio seu de governo, o socialista Pasqual Maragall; pois quando o PSOE e o PP negociaram com os terroristas sim fora feito público, embora muitas reuniões foram em secreto, como já vimos anteriormente. Também poderíamos afirmar, como o PP, o acto de Carod-Rovira foi insolidário, pois apenas pretendia que a ETA deixasse livre de mortes à Catalunha. O republicano negou essa informação, mas ainda no caso de que fosse certo, a solidariedade é repartir também o sofrimento e os mortos? O terço erro pudo ser que ele não está autorizado para negociar com ninguém, pois também não representa mais que "una pequeña parte de la sociedad Española". Ele não pretende isso, mas representar uma notável parte da sociedade catalã e, aliás, cumpre lembrarmos que Carod-Rovira foi fundamental para que a banda terrorista Terra Lliure (Terra Livre) abandonasse a luta armada como método para a independência da Catalunha.



Segundo dois espertos que debateram ontem sobre a reunião entre o republicano e os assassinos na Cadena SER, é difícil afirmar se Carod-Rovira cometeu um delito. No entanto, para eles era muito evidente que a filtração à imprensa do "bom trabalho feito pelo CNI [Centro Nacional de Inteligencia]" teria de ser explicada, pois quando o CNI elabora um informe "a quem primeiro lho entregam é ao presidente do Governo e só depois ao Ministério que o precise". Mas entre as previsões de trabalho deste organismo "não está a investigação de nenhum partido político democrático" como é o caso da ERC, e "de ter sido assim" seria o facto considerado como "um claro delito". Quem será, pois, o delinquente neste tema tão espinhento?

Suponhamos que tudo funcionou correctamente no labor do CNI. Então, Aznar já conhecia antes da sua publicação na imprensa da direita nacionalista espanhola a reunião do republicano com os terroristas. Como foi parar à imprensa a informação? Com que finalidades um informe secreto cuja revelação pode pôr em risco a luta anti-terrorista se pode fazer público? De momento as únicas respostas poderíamos tirá-las do desenvolvimento dos acontecimentos públicos no Reino Unitário da Espanha. Para Manuel Fraga, presidente de Galicia foi útil para se librar mais ou menos bem do escândalo dum alcaide do seu partido condenado por abusar sexualmente duma menor de idade, porque há coisas "de mucho más interés en este momento, como por ejemplo que Carod Rovira ha reconocido que se ha reunido con ETA, así que vamos a dejarnos de menudencias". Teófila Martínez, candidata do PP à presidência da região de Andaluzia, achou uma arma eleitoral contra o socialista Manuel Chaves ao denunciar que o partido deste "governa com quem fala com a ETA", em referência ao pacto dos socialistas com os republicanos na Catalunha. Mas o engraçado foi que esta mulher afirmou que abandonaria o seu partido se soubesse que governa com os que dialogam com os assassinos... Ainda não temos constância de que cessasse a sua militância no PP por mor dos quatro concelhos catalães onde o PP e ERC governam juntos. O único evidente até o momento é que com a divulgação dum informe que teria de ser secreto, o único que se conseguiu foi alertar a cúpula dos terroristas e o cesse nas suas funções governamentais de Carod-Rovira.

Titulava eu o outro dia como Chuva de hipocrisia um texto no que denunciava a atitude... hipócrita dos críticos com Carod-Rovira por "pactuar com os assassinos a quem matar e a quem não" -falsa afirmação, por certo-. E complemento-a hoje oferecendo alguns dados que se calhar o/a leitor/a desconhece. A banda terrorista ETA são "os assassinos" porque mataram até 2003 um total de 813 pessoas. No entanto, outros assassinos como Fidel Castro ou Muammar El Gadafi -acordos pesqueiros, tecnológicos, etc. em 1998-, responsáveis de milheiros de mortos, são aliados potenciais e dignos de quaisquer género de prebendas e benefícios vários. A gente tem o costume de esquecer no Reino Unitário da Espanha que Manuel Fraga Iribarne não cessou nas suas funções por se ter reunido e negociado com ambos os dois, por não falar do seu apoio incondicional ao regime de Pinochet ou que um membro paramilitares fascistas da Triple A argentina fora o seu guarda-costas nos tempos da transição política espanhola -e implicam-no na matança de Montejurra-. Para além dos ainda vigentes apoios a Gadafi, temos também a visita do 'reformista' -apesar das penas de morte assinadas pelos seus- iraniano Mohammed Hatami à Espanha, os acordos com o regime chinês ou a connivência institucional com ditaduras africanas como a de Teodoro Obiang na ex-colónia da Guiné Equatorial. A diferênça entre dialogar com uns assassinos ou com outros será que os réditos económicos são mais apetecíveis que as vidas humanas? Quem sabe. Um já não se estranha de nada.


Pensamento do dia


     «Galiza, tanto etnograficamente como geograficamente e desde o aspecto linguístico, é a prolongação de Portugal; ou Portugal uma prolongação da Galiza, o mesmo dá».
Ramon Otero Pedraio,
“Morte e resurreccion”,
in: Pensamento Galego I,
edit. sept., Santiago-vigo 1977, pag. 131.



quinta-feira, janeiro 29, 2004

Ver para crer

     
A imagem que lhes amostro sob estas linhas -e que podem aumentar clicando nela- tem por texto "No, esto no es Madrid. Es la calle Soberanía de Galapar un Lunes de julio, a las 16 horas. Estos atascos los sufrimos con frecuencia todos los vecinos y vecinas de Galapar, consecuencia de las contínuas actuaciones desordenadas del gobierno de Galapar, en materia de circulación".



Galapar é um concelho castelhano governado pelo PSOE. A foto procede da página do PP. Para além da má redacção e dalguma gralha, queda a pergunta de se os do PP simplesmente vem diabos em todas as partes ou é que estão tão afeitos a desqualificarem o adversário que nem se molestam em que os seus argumentos pareçam verosímeis. Como o 'affair' Carod-Rovira, embora isso será objecto de comentário amanhã.

Preocupante mas expectável


     Em qualquer País do Mundo, as declarações de José Manuel de Mello sobre a Ibéria produziriam reacções explosivas nos mais diversos partidos do espectro político.

     Em Portugal, a quase totalidade dos políticos absteve-se de fazer a mais pequena declaração sobre o assunto.

     Isso é realmente grave. Mas, é apenas o que seria expectável. Por um lado, José Manuel de Mello é um dos maiores empresários portugueses. Por outro lado, o que talvez não seja menos importante, nenhum dos partidos políticos portugueses, do que se convencionou chamar o espaço da governabilidade, se aventura a hostilizar a Espanha. Todos eles sabem de onde lhes vem o dinheiro para financiar as campanhas eleitorais e tudo o mais..., seja de um ou de outro lado...

     Por razões que facilmente se entendem, do silenciamento e cumplicidade geral, salvou-se o PCP...

     Sobre este assunto, veja-se o Documento 9, no Arquivo Portugal e Espanha, entrado a 29/01/2004, com o título «Deputado comunista contra apelo de José de Mello a favor da Ibéria».


Amistades peligrosas: dos hombres en lua de miel?




Carlos Tavares Y Rodrigo Rato



Luna de miel ibérica



EDP ABSORBERÍA A FENOSA Y CANTÁBRICO A CAMBIO DE LA SUPREMACÍA DE TELEFÓNICA EN PORTUGAL

La luna de miel que viven los Gobiernos de Madrid y Lisboa tras la firma del Mercado Ibérico de la Electricidad (Mibel) puede tener consecuencias de largo alcance en el mapa empresarial común: la portuguesa EdP podría contar con el visto bueno de Madrid para convertirse en un gran protagonista energético peninsular, a cambio de idénticas facilidades de Lisboa para que Telefónica se haga con el liderazgo en el mercado de las telecomunicaciones.

La especie se ha convertido en motivo de conversación en ambas capitales desde que, el pasado día 20, el vicepresidente y ministro de Economía español, Rodrigo Rato, y su homólogo luso, Carlos Tavares, firmaran en Lisboa el Mercado Ibérico de la Electricidad (acto al que asistieron los presidentes de ambos países), que será operativo a partir del próximo 20 de abril.

El nuevo clima de cooperación (“es el caso más avanzado de la integración de los mercados de la UE”, según Durao Barroso) se plasmaría en el visto bueno oficial español para que la eléctrica portuguesa EdP se convierta en uno de los primeros operadores energéticos peninsulares, en directa competencia con Endesa e Iberdrola, mediante la toma de control de Hidrocantábrico (donde ya posee el 40% del capital) y la absorción de Fenosa.

A cambio, el Gobierno de Lisboa debería consentir una mayor presencia de Telefónica en Portugal Telecom, todavía participada por el Estado luso. La empresa que preside César Alierta cuenta ya con un paquete cercano al 5% en la portuguesa y ambas comparten intereses comunes en la telefonía móvil brasileña. El presidente de Telefónica Móviles es Viana Baptista, ciudadano portugués.

Tras años de dura pugna con el Gobierno español, EdP ha visto no sólo reconocidos sus derechos de voto en Hidrocantábrico, sino que ha anunciado su intención de incrementar su presencia en la eléctrica asturiana con la compra del 35% que ahora mismo posee el grupo alemán EnBW.

Pero los planes de Joao Talone, presidente de la firma lusa, que el martes compareció ante la prensa madrileña, van más allá, y apuntan también a Unión Fenosa, la eléctrica participada por el SCH, sumida en una encrucijada desde la desaparición de Victoriano Reinoso, y que ahora trata de recomponer su plan estratégico en un difícil horizonte de tarifas a la baja. La salida de su accionariado de la alemana EoN ha disparado todos los rumores sobre su futuro como firma independiente.

Esa operación de absorción supondría para EdP sumar al 16% del mercado de generación peninsular que ya ostenta (con Cantábrico) el 11% de Fenosa, hasta totalizar un 27% del total, el mismo porcentaje que Endesa y sólo ligeramente por debajo del de Iberdrola (30%).

Para potenciar la posición competitiva de EdP en el mercado ibérico de la energía, el Gobierno portugués autorizó a la compañía, en abril de 2003, para que asumiera el negocio de gas en manos de la también estatal Galp. Galp Energía estaba controlada mayoritariamente por el Estado luso (34,89%, con otro 13% en manos de Caixa Geral de Depósitos).

Como paso previo a su estrategia de expansión peninsular, EdP deberá resolver el contencioso que desde hace tiempo le enfrenta con la española Iberdrola, propietaria del 5% del capital de la lusa, porcentaje que Ignacio Sánchez Galán (Iberdrola) pretende intercambiar por activos de distribución portugueses propiedad de EdP.

Por lo que a Telefónica respecta, las relaciones con su homóloga portuguesa han sido intensas, con la natural suspicacia lusa provocada por el gigantismo relativo de la española. Ambas empresas participan conjuntamente en el negocio celular de Brasil a través de la joint venture Brasilcel (20,5 millones de clientes), que agrupa al 100% las participaciones que ambos grupos tienen en compañías brasileñas de telefonía móvil.

Las dos empresas participan igualmente, desde noviembre de 1999 y con el 30,5% del capital cada una, en la propiedad de la compañía de móviles marroquí Mèdi Telecom (Meditel), con una cuota del 43% del mercado local.

www.elconfidencial.com
29/01/2004



Pensamento do dia





     «Olivença é uma ferida aberta no corpo da Pátria. É a “chaga do lado” de Portugal. Falsamente cicatrizada, tem sido ocasião para falsas alianças. Reconhecidamente ensanguentada, pode servir para meditação a dois, e abrir caminho, afinal, para uma amizade fraterna. Numa Península não vocacionada para a unidade, Olivença dá testemunho da malícia do imperialismo europeu, inimigo da missão universalista de Portugal e perigoso amigo da Espanha».
Henrique Barrilaro Ruas



quarta-feira, janeiro 28, 2004

GIBRALTAR IRÁ ELEGER PARLAMENTO EUROPEU

     O Parlamento do Reino Unido vai decidir a participação de Gibraltar nas Eleições para o Parlamento Europeu de Junho próximo. A região eleitoral de Inglaterra e País de Gales vai incluir também Gibraltar, segundo uma emenda que prevê a substituição do termo England por the area of England and Gibraltar, e cuja aprovação estará iminente.

Convulsão catalã


     Apesar da recusa inicial em demitir-se, Josep Lluis Carod-Rovira acabou por perder a sua pasta ministerial, embora se mantenha no Governo da Catalunha.

     A fragilidade da coligação catalã e a proximidade das eleições nacionais em Espanha parecem não permitir que o incidente suscitado pela divulgação, pelo ABC, dos contactos entre Carod-Rovira e a ETA, se fique por aqui, com a habitual hipocrisia espanholista e as lutas partidárias que pelo meio já começaram a suscitar-se.

     Sobre este assunto, vejam-se os Documentos 7 e 8, no Arquivo Portugal e Espanha, entrados a 28/01/2004.

Um exemplo para todos nós


     Quando alguns desistem à primeira dificuldade. Quando outros caem em desânimo perante a mais pequena frustração. Quando tantos parecem resignar-se à ilusão da fatalidade diante dos problemas do presente, talvez fosse bom lembrar o grande português que foi António Feliciano de Castilho.



     Cego desde a mais tenra infância, soube vencer esta grave aporia que o poderia ter remetido à miséria, à infelicidade e ao esquecimento a que fatalmente são reduzidos os comuns dos mortais.

     Com vontade, trabalho e determinação conseguiu tornar-se num dos maiores poetas e prosadores portugueses do século XIX, autor de uma vastíssima obra literária, para além das muitas actividades que desempenhou, da política à cultura. Entre as muitas agremiações a que pertenceu, conta-se a Academia de História de Madrid.

     Nasceu num dia como hoje, 28 de Janeiro, do ano de 1800.

     Pela coragem como enfrentou uma limitação quase intransponível, talvez seja um exemplo em que os mais cépticos e derrotistas possam reflectir...


Pensamento do dia



     «Para quando a nova viagem para esse outro desconhecido que somos nós mesmos e Portugal connosco?».
Eduardo Lourenço
O Labirinto da Saudade



Quem estará?

     Que a abordagem a Portugal - e aos interesses dele - não é linear, é sabido.
     Que, tantas vezes, a defesa dos interesses nacionais está dependente dos pré-conceitos políticos, culturais e ideológicos que envolvem cada um dos intervenientes na cena pública, é também sabido.
     Como também é verificável que é razoavelmente complexo e atribulado o entendimento da realidade nacional por parte das distintas correntes político-cultural-ideológicas do actual regime.
     Sectores vários de onde se aguardava uma posição portuguesa, exibem desânimo e descrédito e espalham confusão, parecendo que julgam ter chegado o fim.
     Outros, aparentemente menos herdeiros de uma história de nove séculos ou menos bafejados por ela, saltam a terreiro e dizem para o que estão.
     Anotem-se, de uns e de outros, os entendimentos, as proclamações e os actos.
     Chegará o momento em que seremos todos desafiados a pôr pé no terreiro.
     Chamados todos, quais estarão?



     Ora anotemos, por hoje:

     [O secretário-geral do Partido Comunista] Carlos Carvalhas aproveitou a conferência de imprensa para se insurgir mais uma vez contra os grandes grupos económicos. Ontem, o alvo foi José Manuel Mello. «A venda de importantes posições e empresas e empresas ao estrangeiro, por parte de capitalistas portugueses, os mesmos que se dirigiram ao Presidente da República em defesa dos centros de decisão nacionais, a defesa da integração de Portugal em Espanha por parte de alguns - os novos condes de Andeiro - mostra também a importância de se elegerem homens e mulheres nacionalistas», disse o líder comunista.
In Público (3.ª feira, 27-01-2004)




terça-feira, janeiro 27, 2004

Te miro...




Vasco
Público
25/01/2004


CORDÃO HUMANO PARA O TRICENTENÁRIO DE GIBRALTAR

     A Federação dos Pequenos Negócios de Gibraltar projecta envolver o Rochedo num gigantesco cordão humano, para comemorar o Tricentenário, a 4 de Agosto. A ideia é mostrar ao mundo que Gibraltar e o seu povo não podem ser separados, e os contactos feitos até agora, junto da população e autoridades locais, têm tido respostas bastante positivas.


Finalmente ganhámos uma concessão!... Mas...


     Finalmente ganhámos uma concessão de obras públicas em Espanha!...

     Um consórcio formado pelas empresas Corsán-Corviam, Comsa, Azvi, Sando Construcciones e por uma empresa portuguesa foi o vencedor na adjudicação da concessão da auto-estrada Madrid-Toledo.

     Mas a empresa integrante do consórcio não é uma empresa de construção civil... É o Banco Espírito Santo, que financiará a totalidade do projecto, orçado em 353 milhões de euros... Pois é, para construirmos em Espanha não servimos. Para metermos lá o dinheirinho já temos algum préstimo.

     Esta concessão, conhecida ontem, integra-se num conjunto de cinco auto-estradas a construir em Espanha, em cujo concurso ganharam as empresas espanholas Actividades de Construccion y Servicios (ACS), o Grupo Ferrovial, a Fomento de Construcciones y Contratas (FCC) e a Corsan-Corviam. De fora ficou a Sacyr... Azar dos azares, esta empresa passou a ter uma participação portuguesa de 5%, resultante da absorção da Somague. Parece azar. Mas que há coincidências há... tanto no momento em que Madrid dá este caramelito aos portugueses como na exclusão da Sacyr...



Esperteza "saloia"...


     Os espertos da Iberdrola propuseram trocar as suas participações de 4% do capital da Galp Energia e 5% do capital da EDP por activos no sector energético português. Para já, parece que a EDP recusa os caramelos espanhóis...

     Ao contrário de certos inteligentes que trocaram o domínio total que tinham nas suas empresas por insignificantes participações sociais em sociedades em que nada mandarão, os espanhóis preferem trocar participações accionistas em empresas em que não conseguem mandar pela propriedade directa em unidades de produção em que sejam eles mesmos os únicos a mandar...

     Sobre este assunto, veja-se o Documento 6, no Arquivo Portugal e Espanha, entrado a 27/01/2004, intitulado «EDP rejeita troca de activos por posição da Iberdrola no sector energético».


Sobre o desvio das águas


     Quem sabe da poda, já deu uns acertados golpes de podão, bem modelados pela boa arte da escrita, a propósito do mais recente desvio das águas perpetrado pela nossa "amiga" Espanha, num dos seus habituais gestos de fraternal terrorismo ecológico e de espezinhamento dos compromissos internacionais que assina (e rapidamente assassina..)... E estamos no Inverno! O que será em tempo de estio, quando São Pedro liberalmente não nos contemple com as necessárias e abundantes chuvas?

     Leia-se mais uma das sapientíssimas peças de Anaximandro, nas Notas Verbais: «Muito antes dos rios, já o desvio de águas tinha começado nas Necessidades».


Chuva de hipocrisia


     Uma chuva de desqualificações caiu sobre Josep Lluís Carod-Rovira, o líder dos republicanos catalães, por umas negociações com a banda separatista e terrorista ETA para que cessasse na luita armada. Tão terrível foi a iniciativa de Carod-Rovira para que o acusassem de cometer um delito, de baixeza moral, de desleal, de contrário às vítimas, etc.? As reacções mediáticas são já sobradamente conhecidas ou imaginadas: acosso constante ao líder dos republicanos. Somente pudo dar a sua versão dos factos, do que o levou a fazer os contactos, das suas intenções e demais no programa La Ventana, na Cadena SER, ontem à tarde. Ora bem, também houvo reacções institucionais. Por exemplo, o presidente andaluz, Manuel Chaves - do PSOE - anulou "por questões de agenda" a reunião que tinha prevista com o seu colega de partido Pasqual Maragall, presidente catalão - cumpre ter em conta que Andaluzia estará de eleições em março. E também o presidente do Parlamento Europeu, Pat Cox, rechaçou a reunião programada com o presidente do Parlamento Catalão, o republicano Ernest Benach, no seio do Congresso de Vítimas do Terrorismo que se celebra na Espanha.

     Segundo informa hoje o ABC, os representantes da ETA com que se reuniu Carod-Rovira em Perpinyà -localidade catalã sob domínio francês- fôrom Mikel Antza José e Antonio Urrutikoetxea Bengoetxea, álias Josu Ternera; mas o republicano assegurou que não se chegara a nengum acordo, e que o único que fizera fora o mesmo que quando em 2002 se entrevistara com o braço político da banda, Euskal Herritarrok, "tentar salvar vidas humanas".

     A questão é: merece a actuação do republicano todos os qualificativos que lhe fizérom? Merece a persecução que se estabeleceu contra a sua pessoa? Tem de demitir do seu posto como segundo no Governo Catalão? Se quadra teríamos de fazer uma viagem retrospectiva a quase vinte anos atrás para podermos emitir um juízo válido.


     Visto tudo isto, com que legitimidade o secretário geral dos socialistas espanhóis, José Luis Rodríguez Zapatero, exige a destituição de Carod-Rovira no Governo catalão? Com que direito os que negociárom com ETA -de Aznar a Mayor Oreja e passando por Piqué e muitos outros- se atrevem agora a desqualificar o líder republicano e a reclamar que o PSC-PSOE rompa o pacto de governação com ERC na Catalunha? Josep Lluís Carod-Rovira procurava o objectivo da paz - já não apenas para a Catalunha - como se supõe que procuraram anteriormente o PSOE e o PP. E se alguém tem de dar contas diante dos cidadãos, teriam de ser todos aqueles que no seu dia contactárom com os assassinos. Quem esteja livre de pecado, que tire a primeira pedra, e que não seja de hiprocrisia.




segunda-feira, janeiro 26, 2004

Espanha a cortar a água, mais uma vez...


     Terei sonhado? Ou terei mesmo ouvido, há poucos dias, o Primeiro-Ministro português a declarar, ao lado do Primeiro-Ministro espanhol, que as relações entre os dois países eram excelentes, que Aznar é um amigo de Portugal, que os dois resolveram fraternalmente vários problemas difíceis entre os dois países. Terei mesmo sonhado? Ou já não há nem vergonha nem dignidade da parte de quem se esperaria a defesa dos interesses nacionais e a denúncia de todos os ultrajes e atentados cometidos contra nós?

     Afinal, mais uma vez, os convénios entre os dois países sobre os caudais dos rios comuns são letra morta. Alguém que conheça duas páginas que sejam de História das relações luso-espanholas alguma vez acreditou que a Espanha cumpriria o acordado?

     Sobre este assunto, veja-se o Documento 5, no Arquivo Portugal e Espanha, entrado a 26/01/2004, intitulado «Madrid 'seca' rios portugueses ».

"Ligações perigosas" e vendaval em Espanha




     Josep Lluís Carod-Rovira, conseller en cap da Generalitat, da Catalunha, confirmou hoje ter reunido com a ETA, há cerca de um mês e meio, em França, a pedido desta organização, alegando que havia esperança de que se empreendesse uma trégua e argumentado que para o seu partido, a ERC, a paz é um valor supremo.

     Segundo Carod-Rovira da reunião não resultou nenhum «pacto, nem nenhum acordo, nem nenhuma contrapartida», porque não falou em nome do governo mas do partido.

     O diário espanhol ABC, afirma que este dirigente catalão estaria disposto a fazer uma declaração independentista, defendendo o direito à autodeterminação de todos povos do Estado espanhol, em troca da promessa de que a ETA não realizaria atentados na Catalunha.

     Esta notícia gerou um enorme vendaval. Os seguintes títulos do ABC sintetizam e revelam bem a confusão que vai para aqueles lados, tanto em Espanha como na Catalunha:

· Carod afirma que no dimitirá y revela que Maragall no se lo ha pedido

· El PSC califica la reunión de «gravísimo error» y pide a Carod «lealtad»

· Aznar insta a la salida de Carod de la Generalitat y a Zapatero a que rompa con ERC

· Zaplana exige a Zapatero una «respuesta inmediata» ante este hecho «inmoral»

· El Príncipe expresó su esperanza en la desaparición del terrorismo en la apertura del Congreso de Víctimas

· La viuda de Fernando Buesa responde a Carod-Rovira que «no puede haber ganancias a cambio de paz»

· Rajoy ve actitud «ilegal y delictiva» en los contactos de Carod con ETA

· Zapatero condena el contacto de Carod con ETA y dice que respetará la decisión que adopte Maragall

· Acebes pide a Carod-Rovira y Maragall explicaciones inmediatas

· Carod-Rovira ultima un pacto con ETA para que no atente en Cataluña


     Ironia das ironias: este escândalo rebenta no mesmo dia em que, em 1939, as tropas nacionalistas de Franco, no âmbito da Guerra Civil Espanhola, tomaram Barcelona. A História prega cada partida!...


Reacções às declarações de José de Mello


     As reacções às declarações de um dos "velhos capitães" da indústria portuguesa, José Manuel de Mello, sobre a união com Espanha, começam a surgir, desde a blogosfera à imprensa.

     Entre a exaltação patriótica e a aleivosia iberista de algumas das reacções já conhecidas e de outras que se aguardam proximamente, alguns têm questionado, quiçá com pertinência, qual o verdadeiro sentido e alcance das declarações do senhor Mello.

     Quem já tinha reparado que entre a miserável situação política actual do País e a que se viveu no fim do século XIX existe uma triste e confrangedora similitude - bastando ler Eça de Queiroz para se perlustrar a quase identidade entre os dois momentos históricos - encontra na actual Questão Ibérica uma angustiante semelhança: sombria prova de que, não fora o progresso tecnológico quase totalmente importado do estrangeiro, pouco ou nada se evoluiu no último século em Portugal. Relativamente a muitíssimos dos políticos portugueses - e não digo todos para prever alguma eventual excepção que a custo vislumbro -, aventurava-me mesmo a dizer que nada mudou nos três milhões e quinhentos mil anos que separam o Homem actual dos primeiros australantropos, tirando o pormenor taxionómico de, não sendo eles africanos mas alucinados iberistas e provincianos europeístas, merecerem, talvez, ser classificados como iberoantropos ou europoantropos... Diferentemente não se pensará e dirá de alguns empresários e gestores de empresas...

     Sobre este assunto, vejam-se os Documentos 3 e 4, no Arquivo Portugal e Espanha, entrados a 26/01/2004, intitulados «Carta a Felipe das Astúrias» e «O Fim de Uma Pátria».


O "fantasma" dos transvases


     A discussão sobre a realização de transvases em Espanha volta a reacender-se. O programa eleitoral do PSOE contempla a efectivação de transvases no rio Douro, na região de Zamora.

     A opção do PSOE parece constituir uma alternativa à realização de transvases no rio Ebro que está a ser contestada em Espanha. Os governos da Catalunha e de Aragão acabam de assinar a "Declaració de Mequinensa", formando uma frente comum contra os transvases neste rio.

     Sobre este assunto, vejam-se os Documentos 1 e 2, no Arquivo Portugal e Espanha, entrados a 26/01/2004, intitulados «"Fantasma" dos transvases regressa» e «Front comú de Catalunya i l'Aragó contra el transvasament de l'Ebre».


Arquivo Portugal e Espanha


     Quem lê Portugal e Espanha facilmente se apercebe que não é um blog como os outros. Talvez nem seja um blog...

     Claro que diante da enorme variedade temática e tipológica dos blogues existentes, possivelmente não será fácil definir, de uma forma precisa e indiscutível, o que seja um blog.

     A maioria dos blogues tem ou pretende ter um carácter essencialmente opinativo. Portugal e Espanha, em vez disso, pretende ser um espaço não só de reflexão, mas também, e talvez sobretudo, um espaço de informação e documentação.

     Por isso, não tem abdicado de publicar longos textos e de reproduzir artigos da imprensa sobre os temas em que nos especializámos.

     Porque nem sempre se justifica transcrevermos aqui longas notícias, artigos de opinião ou documentos, criámos um Arquivo Documental onde se depositarão tais conteúdos. O mais comum na blogosfera é apenas fazer uma alusão e colocar um ligação para certos textos dados à estampa na imprensa. Como muitos deles deixam de estar em linha ao fim de poucos dias e porque alguns merecem estar perenemente disponíveis, serão depositados no Arquivo Documental. Com isto satisfaz-se, parcialmente, a necessidade de existir um observatório da imprensa quanto à temática das relações luso-espanholas, que alguns portugueses vão fazendo a título particular, mas que assim fica, de algum modo, público.

     O Arquivo Portugal e Espanha está oficialmente inaugurado.


domingo, janeiro 25, 2004

"Cassandras ou faroleiros ? ..."


     Recomendamos a leitura do post "Cassandras ou faroleiros ? ...", de hoje, domingo, 25 de Janeiro, publicado na Grande Loja do Queijo Limiano.

     E agradecemos a referência ao post "Lalim, Lamego", feita pelo esclarecido e sempre atento Antonio Balbino Caldeira no blog Do Portugal Profundo.


Na morte de Afonso Lopes Vieira



     Num dia como hoje, a 25 de Janeiro de 1946, morria em Lisboa o poeta e prosador Afonso Lopes Vieira, nascido em Leiria a 26 do mesmo mês, do ano de 1878.


ILHAS DE BRUMA
SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
– Senhor Deus, misericórdia!
– Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
– Senhor Deus, misericórdia!
– Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
– flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar


Afonso Lopes Vieira



Galiza de Afonso Lopes Vieira




Que Castela e castelhanos
todos num montão, a eito
não valem o que uma ervinha
destes nossos campos belos.

Trova Galega

Ó Galiza, Galiza dos verdes prados
Tão irmãos dos nossos, por Deus abençoados
– Deixa Castela e vem a nós!

Ó Galiza, Galiza dos campos floridos
Por Deus abençoados, por vós tão queridos,
– Deixa Castela e vem a nós!

Ó velha galiza dos cantares amados,
Tão irmãos dos nossos, tão bem suspirados
– Deixa Castela e vem a nós!

Ó Galiza, soidosa dos cantates sentidos,
Se és tão longe deles, vem aos teus amigos,
– Deixa Castela e vem a nós!


A Galiza a modo de velho cantar
Afonso Lopes Vieira
Século, 8 de Agosto de 1917



Portugal visto de fora


     "Portugal visto de fora" foi hoje o tema do programa "Directo ao Assunto", na TSF.

     Maria Isabel Barreno, Gérard Castello Lopes, Eduardo Prado Coelho, Hélder Macedo e Eugénio Lisboa, foram os participantes numa reflexão que pretendia abordar como Portugal é visto «por portugueses que estão fora de Portugal e que habitualmente falam sobre o nosso país».

     «Páre, escute e olhe!», clicando aqui e depois no icon em forma de altifalante.

     Não dará por desperdiçado o tempo que gastar. Foi uma boa reflexão sobre Portugal.


Os pés de Portugal


     Amália: a voz de Portugal; Carlos Paredes: as suas mãos musicais; Fernando Pessoa: os olhos poéticos com que Portugal fita o Mundo; Eusébio da Silva Ferreira: os seus pés desportivos.



     O maior futebolista português de todos os tempos, ressalvadas as comparações de época impossíveis de fazer, comemora hoje 62 anos. Nasceu em 25 de Janeiro de 1942, na capital da antiga província ultramarina portuguesa de Moçambique, Lorenço Marques.

     Ao serviço da Selecção, em 64 jogos, marcou 41 golos, dois dos quais à Espanha, no dia 15 de Novembro de 1964, na cidade do Porto, num jogo que Portugal venceu por 2 a 1. Foram o sexto e sétimo golos da sua carreira internacional, ao nível de selecções.

     É mais um dos excelentíssimos portugueses, não europeus: um Português de África...




sábado, janeiro 24, 2004

Um Manifesto cada vez mais actual


     Com profunda tristeza e preocupação quanto ao futuro de um País quase milenar que em poucos anos parece ter abdicado da sua Independência - quando tanto outros povos sonhariam conquistar a sua - vemos que um Manifesto redigido em Março de 2002 está cada vez mais actual.

     A trágica actualidade do que nele se escreveu constituiu a prova da razão que então tínhamos, mas sobretudo patenteia que não só pouco ou nada se fez para se resolverem alguns dos problemas mais graves que País então evidenciava mas que ao invés se tem caminhado em passo apressado rumo ao aniquilamento suicida de Portugal.

     Quando foi escrito, por um grupo de cidadãos anónimos e sem quaisquer ligações partidárias ou preocupações ideológicas, não se pretendeu fazer qualquer crítica partidária ao Governo que estava a cessar funções. Recolocá-lo aqui , agora, não representa, igualmente, um ataque sectário ao partido ou coligação que hoje tem nas mãos o futuro do País.

     Portugal é bem mais importante que os seus partidos políticos, os seus dirigentes ou os seus opositores.

     Independentemente dos partidos políticos que têm ocupado as funções governamentais em Portugal, parece cada vez mais claro que há um rumo certo em direcção à Ibéria. Já há alguns anos que se vislumbrava um programa económico, social e cultural nesse sentido. Agora, alguns, de extracção social cada vez mais elevada, começam a não ter nem pudor nem vergonha em proclamar o programa político que posteriormente se concretizará.

     Dessa traição para com centenas de gerações de Portugueses que construíram e souberam conservar um Portugal Livre e Independente não nos acusarão!

Manifesto por um Portugal Livre e Independente

Declaração de Princípios


Conscientes da grave situação que vive Portugal e dos muitos perigos e ameaças que se colocam hoje à Independência, à Integridade e à Soberania do Estado Português;

Preocupados com o intolerável desinteresse que os responsáveis políticos e administrativos do Estado Português têm revelado pela preservação da Identidade Nacional;

Convencidos da necessidade de se realizar uma profunda reflexão sobre os rumos que Portugal tem ultimamente seguido, muito especialmente em matéria de política externa, de defesa e de segurança;

Convictos da imperiosidade de conjugarmos os esforços e as capacidades dos Órgãos de Soberania e de toda a Comunidade Portuguesa no sentido de se elaborar um vasto Projecto Nacional que possa mobilizar todos os Portugueses para alcançarmos o desenvolvimento económico, social e cultural que almejamos, para recuperarmos e conservarmos os traços essenciais da nossa Personalidade Colectiva, e para preservarmos os fundamentos da nossa Independência e Soberania;

Orientados pelo único interesse de contribuir para o Bem Comum de Portugal, exercendo um direito democrático e um dever cívico de empenhamento na solução dos problemas nacionais;

Totalmente afastados de quaisquer opções político-partidárias, ainda que perfeitamente legítimas no actual quadro jurídico-constitucional democrático que partilhamos;

Completamente descomprometidos com qualquer ideologia política;

E exclusivamente motivados pelo Amor que nutrimos pelo Nosso País;

Decidimos apresentar aos Portugueses e especialmente aos que desempenham ou pretendem vir a desempenhar funções políticas e administrativas o “Manifesto por um Portugal Livre e Independente”.

Manifesto


Portugal vive hoje um dos mais graves momentos da sua História quase milenar. Depois de mais de oito séculos de Independência, arduamente alcançada com os mais denodados esforços e sustentada à custa dos mais pungentes sacrifícios, assistimos nos últimos anos à corrosão dos fundamentos essenciais em que se construiu o Estado Português e à destruição dos principais alicerces em que assentou a Nação Portuguesa.

O País, que nos séculos XV e XVI se lançou na gesta oceânica dos descobrimentos geográficos e investiu todos os seus recursos na heróica empresa da expansão ultramarina, assemelha-se no momento presente a um barco à deriva, desprovido de um comando ousado e competente, dirigido por uma marinhagem descrente nas suas faculdades e mal preparada para a singradura do caminho, navegando desorientadamente ao sabor de inconstantes ventos e correntes, enfim, pronto para um naufrágio colectivo que parece cada vez mais certo e cada vez mais próximo.

Independentemente dos partidos políticos que se têm revezado no poder, governa-se a pensar estritamente no dia de hoje sem se cuidar de acautelar os interesses permanentes do Estado e os objectivos duradouros da Nação. Decide-se no estrito cumprimento das preocupações individuais ou da mera conveniência de alguns grupos, sem olhar aos relevantes desideratos que qualquer espírito avisado consideraria serem os que mais convêm ao bem comum do Povo Português. Actua-se na ignorância das grandes certezas e no desconhecimento daquelas constantes históricas que permitiram a sucessivas gerações de dirigentes conservar o País na lista dos Povos capazes de se governarem a si próprios e manter Portugal entre os Estados que preservam a sua Liberdade e não abdicam da sua Independência.

Desprezaram-se os Desígnios Nacionais que durante tantas centúrias orientaram o escol que teve o privilégio de conduzir os destinos da Nação. Descurou-se o Patriotismo e desleixaram-se os Valores que século após século marcaram as feições morais do Homem Português e que fizeram dele uma referência civilizacional em todas as partidas do Mundo. Destruíram-se os padrões da Portugalidade e, sem perguntar, democraticamente, a toda a comunidade sobre as opções que cada um entendia serem as mais correctas e proveitosas para o Todo Nacional, uma minoria que se julgou iluminada e portadora da vontade geral lançou o País em perigosas aventuras das quais pode não haver retorno.

Portugal está hoje desprovido de um Projecto Nacional e desvairadamente caminha conduzido por interesses que não são os dos Portugueses e que parecem não servir o irrenunciável objectivo da nossa perenidade como Povo e como Nação.
Portugal tem hoje a aparência de uma empresa em processo de falência cujos administradores mantêm uma mera gestão corrente enquanto poderes económicos, políticos e financeiros estrangeiros, sequiosamente aguardam para tomar em suas mãos o pouco que entre eles falta repartir.

A agricultura está em ruínas. As pescas nem uma pálida imagem dão do esplendor que tiveram no passado. Da marinha mercante restam uns quantos barcos que a União Europeia aguarda ocasião para abater. As minas estão quase todas encerradas. Os grandes complexos industriais foram fechados ou repartidos entre estrangeiros. O turismo, quase a única fonte de divisas estrangeiras de que vive Portugal, aguarda que a falta de planeamento urbanístico e a degradação da paisagem lhe dêem um golpe fatal.

Depois de aniquilado quase todo o aparelho produtivo e de alienado a estranhos o nosso sistema financeiro, como verdadeiramente português apenas subsiste um rol interminável de dívidas por pagar e a vergonhosa colecção de prémios internacionais onde ocupamos os primeiros lugares nas avaliações da incompetência, da ignorância e da impreparação, qualidades em que um miserável sistema de ensino tem esmeradamente educado gerações inteiras de gente infeliz e medíocre que em lugar de contribuir futuramente para o progresso e desenvolvimento de Portugal será penhor da sua ruína e retrocesso.

O País não tem Política Externa própria, regendo-se pelas ordens ou directrizes que chegam de Estados estrangeiros. As Forças Armadas foram lentamente estranguladas e estão a ser objecto de um processo de desmantelamento, insidioso e contumaz. Na ordem interna, consciente ou inconscientemente, enfraqueceu-se a autoridade democrática do Estado. E na esfera internacional o País caminhou para a descredibilidade e para a exiguidade da sua influência mundial.

Os conteúdos essenciais da Soberania e da Independência, um a um, foram esvaziados e dissolvidos.

Portugal deixou de ser um Estado Independente e Soberano, em todos os domínios que considerarmos: o económico, o financeiro, o militar e mesmo o cultural.

Restam uns cada vez mais ténues traços da Identidade Nacional, também ela ameaçada por acções e omissões daqueles que os Portugueses têm escolhido para seus representantes e dirigentes.

Assim:

a) Não sendo possível que Portugal prossiga o seu caminho sem a consciência do seu passado e das suas raízes, sem o conhecimento dos seus meios presentes e sem a definição de um quadro global dos seus objectivos futuros, é imperioso que se elabore um verdadeiro Projecto Nacional que, assentando nos grandes valores da Portugalidade e nos traços essenciais do carácter do Homem Português, mobilize toda a Comunidade Nacional em ordem a alcançar um Revigoramento das Energias Colectivas e a operar uma autêntica Restauração da Independência Nacional;

b) Porque ao aniquilamento da Identidade Nacional corresponderá a supressão de Portugal como Estado Soberano e Independente, impõe-se uma acção enérgica e esclarecida para reavivar na consciência dos Portugueses o insubstituível valor da nossa Personalidade Colectiva e do nosso Património Cultural;

c) Para que se acautelem os legítimos direitos do Povo Português e se salvaguarde um futuro em que democrática e livremente possamos assumir as opções e as alternativas que mais nos convêm, afigura-se como evidência apodíctica a necessidade de que, nas nossas relações internacionais, cesse a postura de acanhamento e de submissão às vontade dos outros e que os responsáveis pela diplomacia e pela política externa do Estado Português, em especial no âmbito da União Europeia e das relações luso-espanholas, saibam assumir com determinação e sem abdicações a defesa intransigente dos interesses fundamentais de Portugal;

d) Em obediência ao imperativo da preservação da Independência Nacional, impõe-se compreender a excepcional gravidade do expansionismo castelhano sobre Portugal; pôr definitivamente termo à política de seguidismo face ao Governo central de Madrid; reagir face à pérfida política espanhola de acordos e projectos transfronteiriços; e empreender as políticas adequadas a contrariar o perigoso projecto de castelhanização de toda a Península Ibérica e de Hispanização do Mundo Lusófono que, com grande fulgor e habilidade, a Espanha pôs em marcha;

e) No quadro das normas de Direito Internacional Público e dos imperativos impostos pela Constituição da República Portuguesa, exige-se que as relações internacionais entre Lisboa e Madrid se orientem pelo respeito dos princípios da igualdade soberana e da integridade territorial dos dois Estados, da inviolabilidade das fronteiras, da não ingerência nos assuntos internos, da execução em boa-fé dos compromissos assumidos, do direito dos povos à autodeterminação e da condenação das práticas de opressão, colonialismo e imperialismo;

f) No escrupuloso respeito pelo Artigo 5.º da Constituição da República Portuguesa, reclama-se que os responsáveis pela política externa e de defesa do Estado Português se vinculem ao dever de zelar pela salvaguarda dos direitos de Soberania e da Integridade Territorial de Portugal em todas as circunstâncias e muito especialmente no que se refere a Olivença, às ilhas Selvagens, às águas territoriais portuguesas e à nossa Zona Económica Exclusiva, espaços geográficos sobre os quais pesa tanto a ambição desmedida do Governo de Madrid como o seu desrespeito pelas mais elementares normas de Direito Internacional;

g) Sendo sobejamente manifesto que a opção por uma política externa continentalista e pró-espanhola se tem revelado trágica para o futuro nacional, a manutenção da nossa Independência exige a recuperação decidida da vertente atlântica do nosso posicionamento internacional sem a qual a política externa portuguesa não passa de um mero prolongamento interno do projecto espanhol de, na Península Ibérica, fazer coincidir a geopolítica e a geoestratégia e de eliminar a dualidade de soberanias que traumaticamente sempre considerou ser uma anomalia histórica;

h) Orientados pelos interesses estratégicos permanentes do Estado Português e na fidelidade a uma História ultramarina de quase seis séculos, é exigência indeclinável que os responsáveis pelos destinos do Estado Português aprofundem todas as possibilidades e aproveitem todas as virtualidades da constituição futura de uma verdadeira Comunidade de Estados de Língua Portuguesa que se constitua como uma alternativa lusófona e civilizacional aos processos de integração internacional que se estão a caracterizar pela destruição das identidades nacionais e pelo ultraliberalismo desumanizador e neocolonialista;

i) Assumindo-se a existência de uma dimensão transterritorial da Nação Portuguesa, urge que orientemos a acção externa do Estado Português no sentido da conservação dos laços de cidadania dos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, da preservação da identidade cultural e linguística dos nossos irmãos da Galiza e do reforço dos laços afectivos para com as populações que no passado se cruzaram com Portugal nos diversos continentes e que habitam fora dos países de língua oficial portuguesa;

j) Constituindo a política de defesa e de segurança colectiva um dos mais relevantes instrumentos de conservação da Democracia, da Liberdade e da Soberania de Portugal, impõe-se o reconhecimento da importância das Forças Armadas como um dos esteios fundamentais da defesa da Independência Nacional, dotando-as dos meios materiais e humanos necessários à realização das suas importantes e imprescindíveis missões;

l) De modo a impedir que os interesses nacionais continuem a ser condicionados por desideratos de duvidosa legitimidade e prejudicados por contribuições de inconveniente proveniência, designadamente de Estados estrangeiros que vêm mantendo sobre os governantes portugueses perigosa influência, antes, durante e depois do exercício das suas funções públicas, colocando Portugal na dependência de objectivos e projectos alheios, é totalmente inadiável uma reformulação e clarificação do sistema de financiamento dos partidos políticos;

m) No respeito pelas mais elementares regras do Estado de Direito Democrático e atendendo à enorme relevância futura do projecto de aprofundamento da integração comunitária, não é admissível que o comprometimento de Portugal na constituição de uma Europa federal – que a realizar-se conduzirá ao desaparecimento do nosso País como Estado Independente – se possa realizar à revelia do Povo Português, sem uma consulta informada, consciente e geral da vontade de todos os cidadãos nacionais;

n) Atendendo à ciclópica dimensão do problema, esgotou-se o tempo necessário para que os dirigentes portugueses entendam que a continuidade de Portugal como Estado Livre e Independente é absolutamente incompatível com a persistência de gigantescos défices comerciais e com o agravamento progressivo da dependência alimentar e energética do País face ao estrangeiro, afigurando-se como condição da nossa sobrevivência futura o desenvolvimento de políticas económicas, científicas e educativas que permitam a Portugal recuperar um núcleo essencial de capacidades produtivas próprias;

o) Sendo ostensivamente manifesto que a política de privatizações da última década quase se limitou a uma acção de alienação indiscriminada de activos empresariais a interesses estrangeiros, é imperioso que se reoriente a gestão e a propriedade dos escassos meios de produção que ainda subsistem nas mãos do Estado no sentido da defesa do Interesse Nacional e se ponha fim ao aleivoso entreguismo que desde há alguns anos tem reduzido enormemente a capacidade produtiva de Portugal e levado à saída dos principais centros de decisão da economia para o estrangeiro, nomeadamente para Espanha;

p) Esgotaram-se todos os prazos aceitáveis para que Portugal seja dotado de uma racional política de ordenamento do território, de planeamento urbanístico, de gestão de solos e de preservação patrimonial, sem o que o nosso País ficará irremediavelmente condenado a estar submergido perante gigantescos custos de ineficiência, a desfigurar-se face à mais triste e vil degradação da sua paisagem urbana e natural e a perder alguns dos traços mais característicos da sua personalidade;

q) Tendo atingido níveis intoleráveis a tendência de desertificação natural de algumas regiões portugueses, não é possível esperar nem mais um momento para se pôr em marcha uma vasta política de florestação e de preservação dos recursos aquíferos, combatendo-se com energia e sem cumplicidades os incêndios que anualmente devastam o País e fazendo-se frente à esmagadora eucaliptização do Território Nacional, cujos efeitos nefastos constituem ameaças não negligenciáveis à subsistência de Portugal, muito especialmente atendendo ao agravamento futuro do aquecimento global;

r) É tempo de os dirigentes portugueses compreenderem que o crescente endividamento do Estado Português atingiu níveis insustentáveis, não sendo mais possível que tanto a administração pública como as famílias portuguesas continuem a viver acima das suas reais possibilidades, sendo imperiosa uma consciencialização nacional para os graves riscos de total insolvência para que caminham os Portugueses e Portugal;

s) É irrenunciável o dever de procedermos a uma urgente e decidida reforma do nosso sistema educativo através do qual se possa preservar a Identidade Nacional das novas gerações, dotando-as das faculdades necessárias ao desenvolvimento económico, cultural e moral do País, educando-as no conhecimento dos principais acontecimentos, realizações e figuras da História da sua Pátria e formando-as nos valores universalistas, interculturais e humanistas que constituem elementos matriciais do Carácter Nacional;

Enfim, depois de nove séculos de existência Livre e Independente, hoje gravemente ameaçada, é tempo de reflectir ponderadamente e de agir com circunspecção. Se esperarmos demais poderemos não chegar a tempo de Restaurar Portugal!...

Orientados pelo mais estrito apartidarismo e afastados de quaisquer posições político-ideológicas, mas vinculados ao indeclinável dever de pugnar pela preservação da Identidade Nacional e pela defesa da Independência de Portugal, subscrevemos este Manifesto na esperança de que os Portugueses, sem desânimos e sem sentimentos de inferioridade, adquiram a consciência plena da gravidade da situação nacional, e na expectativa de que os mais directamente responsáveis pelos destinos nacionais fiquem alertados para os perigos e ameaças que insidiosamente espreitam o futuro do nosso País e empreendam as mudanças necessárias à difícil mas imperiosa missão de garantir a continuidade de Portugal como Estado Livre e Independente.


Lalim, Lamego

Do Expresso (24 Janeiro 2004):
José Manuel de Mello está descrente das capacidades dos portugueses. Por isso, diz que o melhor é juntarmo-nos a Espanha: «Façamos a Ibéria»

José Manuel de Mello defende espaço Ibérico
José Manuel de Mello, 76 anos, um dos mais conhecidos empresários nacionais, está profundamente pessimista em relação ao futuro do país. Não acredita «de todo» nos políticos e diz que os empresários «apenas gerem a dívida» - e alguns têm mesmo «a mão esquerda mais desenvolvida» por se terem habituado a receber os subsídios de Bruxelas.
Neste quadro, e apesar de ter sido um dos principais impulsionadores do Manifesto dos 40, que reclamava a defesa dos Centros de Decisão Nacional, diz que «o que devíamos fazer era juntarmo-nos rapidamente a Espanha», começando a criar a Ibéria.
Admite que até poderá apoiar uma candidatura de Cavaco Silva a Belém, mas que ninguém no PPD quer o ex-primeiro-ministro. E aponta o dedo acusador: ao privilegiar o encaixe em detrimento da criação e reforço dos grupos económicos nacionais, Cavaco concretizou o sonho de Cunhal, acabando com esses mesmos grupos.

Vá lá saber-se porquê, lembrei-me de uma das festividades mais curiosas do povo português:
A Queima do Judas:

Judas Punido (Lalim, Lamego)


sexta-feira, janeiro 23, 2004

Fazer como os Espanhóis


     No dia 30 de Dezembro de 2003, o Público deu à estampa um singelo artigo da autoria de Mário Rodrigues, intitulado “Fazer como os Espanhóis”.

     Tal texto foi redigido na sequência das agressivas e demagógicas declarações do Embaixador de Espanha em Lisboa, proferidas em reacção às afirmações do Presidente da República de Portugal feitas em Madrid relativamente aos obstáculos levantados pela Espanha à penetração das empresas portuguesas.

     O mesmo artigo foi reproduzido um pouco por todo o País, em diversos jornais nacionais, regionais e locais e até mesmo na página oficial do ICEP indicando a proveniência do texto: o Público. Apesar da sua grande simplicidade e pequena dimensão, o artigo causou agrado entre muitos leitores a avaliar pelos contactos recebidos.

     Um leitor, porém, indignou-se profundamente: Carlos Moreira da Silva, Presidente do Conselho de Administração da Barbosa & Almeida e Presidente Executivo da Sonae Indústria, empresas que por si só têm significativos interesses, negócios e investimentos em Espanha, para além dos que globalmente a Sonae SGPS tem no país vizinho: prova de que também os Portugueses conseguem do lado de lá da fronteira singrar num difícil e tormentoso mercado, onde nem sempre a transparência domina e onde muitas vezes a política e o nacionalismo se sobrepõem às regras da concorrência comunitária...

     Carlos Moreira da Silva não se indignou com o conteúdo e a forma das declarações do Embaixador espanhol em Lisboa que, em tom violento e intolerável a um diplomata acreditado numa Nação estrangeira, ousou insolentemente criticar o Chefe-de-Estado do País que lhe dá guarida, afirmando que os Portugueses deveriam trabalhar mais e deixar de perder o seu tempo a acusar a Espanha de dificultar o investimento português. Não se indignou, também, quando recentemente, na Catalunha e em Madrid, se defendeu que, por todos os meios, se deveria impedir a CGD de adquirir uma parte do Banco Atlântico, o que veio a suceder; nem quando, há poucas semanas, umas centenas de agricultores se manifestaram denunciando que leite de empresas espanholas é posto à venda nos hipermercados abaixo do preço que eles próprios vendem a essas empresas espanholas, facto que a ser verdade configura ou adulteração do produto em causa ou violação das normas de concorrência. E não se indignou nestes casos como parece não ter erguido a sua voz quando uma empresa espanhola, exactamente uma das que ele elogiou no seu artigo, abriu ilegalmente várias lojas em Portugal desprezando a autoridade governamental que já oficialmente havia declarado não licenciar mais estabelecimentos dessa marca com base em normas legais conformes ao Direito Comunitário. Carlos Moreira da Silva apenas se indignou – por motivos que ele melhor do que ninguém conhecerá e que nós apenas podemos conjecturar –, quando, no Público, não entendendo ou não querendo entender o que é uma linguagem metafórica, leu a seguinte frase relativa ao proteccionismo espanhol: «No dia em que os portugueses tiverem a dignidade e o bom senso para não comprar nem um simples fósforo espanhol, o Governo de Madrid perceberá do que nos queixamos». Melhor teria feito se lesse apenas o título e a declaração final do artigo que o deixou indignado: «A atitude mais correcta não é criticar os espanhóis. O mais acertado é fazermos exactamente o mesmo que eles!».

     E ao contrário do que fez, vendo xenofobia onde não existia senão um lídimo e clarividente apelo à defesa da economia nacional, com mais acerto teria procedido, ficando quedo e mudo, atentando apenas e exactamente nesta asseveração e no pensamento que ela encerra, pois aí estava a ideia central do artigo que tanto verberou: Fazer como os Espanhóis. Na verdade, o mais acertado que os Portugueses têm a fazer, além de preferirem o que é português, é fazer como os Espanhóis, na política ou na educação, na gestão das empresas ou na investigação científica, no planeamento urbanístico ou na formação profissional, enfim, em todos os domínios da actividade, seja pública ou privada. À semelhança do que sucede em Espanha, necessitamos imperiosamente de um projecto verdadeiramente nacional; de políticos competentes e intransigentes na defesa dos interesses nacionais; de empresários que não sacrifiquem os objectivos estratégicos das suas empresas e do seu País a certas conveniências pessoais ou a interesses de curto prazo; de gestores de empresas com arrojo e iniciativa que criem marcas nacionais e lancem produtos inovadores e apelativos que conquistem os consumidores estrangeiros; de um povo orgulhoso do seu passado e crente no futuro da sua Pátria; de cidadãos que não se deixando iludir com mitos alheios e fantasias passageiras saibam agir em defesa do seu País; de novas gerações preparadas técnica e cientificamente para os difíceis combates da competição internacional que nos aguarda.

     Em lugar de nos indignarmos com o que é acessório e perdermos tempo com diatribes, talvez seja preferível olharmos atentamente para os perigos que nos espreitam e unirmo-nos num objectivo nacional com vista retirar o País da grave situação em que se encontra. Assim ganharia Portugal e pouparíamo-nos à vergonha de sermos vistos pelos estrangeiros como um povo sempre disposto a aviltar-se, a trair-se e a dilacerar-se.


Bizarro: dar satisfacción a Portugal sin cesiones territoriales...


Máximo Cajal: «Algo hay que hacer para resolver el contencioso de Olivenza»

El ex embajador confiesa no tener la fórmula para poner fin a un litigio que enturbia las relaciones hispano lusas
Ayer presentó en Badajoz su polémico libro y ofreció una conferencia en la que expuso sus controvertidas tesis


JULIÁN LEAL/BADAJOZ

TESIS DE CAJAL

Ceuta y Melilla: devolución a Marruecos de forma negociada y ordenada. Ello daría a España estatura y fuerza moral ante la opinión pública internacional cara la negociación con el Reino Unido.

Olivenza: Encontrar alguna fórmula que de satisfacción a Portugal, pero sin llegar a cesiones territoriales o de soberanía.



Confiesa desconocer la fórmula que podía aplicarse, pero el ex embajador Máximo Cajal tiene muy claro que algo debe hacerse para liquidar definitivamente el contencioso sobre Olivenza que desde hace dos siglos constituye «un irritante» en las relaciones entre España y Portugal. En la presentación de su polémico libro «Ceuta, Melilla, Olivenza y Gibraltar ¿Dónde acaba España? el diplomático jubilado declaró que en ningún momento ha puesto en duda la españolidad del enclave sujeto a reivindicación y desmintió que abogue por establecer una especie de co soberanía.

Si sobre la cuestión oliventina Máximo Cajal desconoce qué receta aplicar, en lo que respecta a las plazas africanas de Ceuta y Melilla mantiene la tesis de que la mejor solución es cederlas a Marruecos «porque es de justicia». Con ese gesto, en su opinión, «España aumentaría en su estatura y fuerza moral cara a lograr la devolución de Gibraltar», argumentó.

Recuperar la soberanía sobre el Peñón ha sido y sigue siendo el primero y principal objetivo de todos los ministros que han pasado por el madrileño Palacio de Santa Cruz y, de hecho, comentó Cajal, «al ministerio que allí radica, medio en broma medio en serio se le denomina desde los tiempos de Castiella del Asunto Exterior, en referencia Gibraltar».

Deuda histórica

Todos los diplomáticos de cierta edad como él han tenido que enfrentarse al 'asunto exterior' de la Roca, aunque los monos todavía siguen correteando por su cresta. Con todo, la situación de Ceuta y Melilla son para Máximo Cajal de máxima importancia histórica y, de hecho, constituyen el eje de su libro.

La razón es, explicó, que esas dos plazas afectan decisivamente en la relación bilateral con Marruecos,un país que, advirtió, condiciona nuestros intereses de seguridad. Las dos plazas africanas han constituido, según Cajal, un 'tabú', un hecho que, entre otros, influyó para decidirse a escribir el libro.

«Como no se puede hablar de Ceuta y Melilla me pareció que una vez recuperada la libertad de expresión al jubilarme alguien tenía que dar un paso al frente, siendo consciente de que me supondría algún disgusto», manifestó. Cuando las tesis que sostiene en sus páginas fueron conocidas, la reacción en las dos ciudades autónomas fue de indignación.

Al ex diplomático le parece lícito que no se compartan sus puntos de vista, pero le resulta chocante que en el año 2003, después de reclamar la libertad de expresión, se pida la retirada del libro de las librerías como hizo el alcalde de Ceuta. Máximo Cajal, que actuaba como asesor en asuntos diplomáticos para el PSOE fue apartado de esta función a raíz de anunciarse la publicación de la obra. Ayer, en Badajoz, avivaba el fuego al considerar «absolutamente legítimas» las reivindicaciones de Marruecos sobre las dos plazas. Y ello porque, según Cajal, «España no ha sido más que una potencia colonial agresora de Marruecos y no hay más que leer la historia para comprobarlo».

El evidente problema que existe con Marruecos se puso de manifiesto de una manera grotesca, según afirmó, con el incidente de la isla Perejil en julio 2002. El episodio no fue otra cosa que «la punta del iceberg de una relación enferma o una no relación por mucho que hayamos firmado tratados de amistad y cooperación y hayamos celebrado cumbres».

En opinión del diplomático, «España tiene una deuda moral con Marruecos» y reprocha que se olviden todos enfrentamientos que han jalonado la historia. Pero sobre todo, «olvidamos que hemos sido nosotros los que fuimos allí a evangelizarlos o a colonizarlos so pretexto de llevarles la civilización».

Reconocía sin embargo que esa actuación no es exclusiva de España sino que fue practicada por otros países como Francia o Inglaterra. Propugna por ello «la devolución de Ceuta y Melilla y no digamos de los islotes que son un insulto a la inteligencia».

La cesión, sin embargo, no debe hacerse de cualquier manera, «ni muchísimo menos cerrar las puertas y salir corriendo». Por razones de «justicia histórica» el traspaso debe hacerse de una manera ordenada y negociada.

Estatura moral

Ese gesto por parte de España le daría «una estatura y una fuerza moral cara a la comunidad internacional para exigir la devolución pura y simple de Gibraltar que, entre otras cosas, es una amenaza para la seguridad nacional en diferentes órdenes: militar, fiscal, de orden público, etc».

A Máximo Cajal no le sorprende que la opinión pública internacional acuse a España de hipocresía y doble lenguaje, en tanto «aplicamos unos argumentos y exigimos unos títulos para Gibraltar que no son admitidos en lo que se refiere a Ceuta y Melilla». Frente a Portugal queda también en evidencia por el contencioso de Olivenza. Con la publicación de sus reflexiones acerca de esos contenciosos diplomáticos Cajal sólo ha pretendido ponerlos sobre la mesa. «Yo no soy más que un simple mensajero, quizá incómodo, que dice lo que piensa».

En contra de la interpretación que se hace de lo escrito en su libro «Ceuta, Melilla, Olivenza y Gibraltar ¿Dónde acaba España?», niega que apueste por una cosoberanía. «Lo que digo es que Olivenza es española, aunque sea sólo por razones geográficas al existir una frontera natural y que no se puede dar marcha atrás en la historia». Pero al mismo tiempo recuerda que existe un problema y le sorprende que moleste que se señale su existencia. «Mirar a otro lado y esconder la cabeza bajo el ala en un tema menor como es éste no conduce a nada», agregó.

Menor o no, el asunto de Olivenza constituye según Cajal «un irritante» en las relaciones hispano-lusas, y si bien el Gobierno portugués no lo plantea de una manera directa y agresiva ello tiene que ver con la forma de ser de los portugueses.

El contencioso sobre la villa oliventina ha sido motivo de una serie de hechos que entorpecen las relaciones. Y no se refería, dijo, al Congreso de Viena o cuando en el siglo XIX se estableció la delimitación de la frontera dejándose sin marcar 45 que corresponden al término oliventino. Según Cajal «son otros incidentes que no trascienden ocurridos en los años noventa o incluso en los dos mil los que ponen en evidencia el conflicto».

Según afirmó, en el libro se limita a exponer la conveniencia de «tomar conciencia» del problema y que sería bueno buscar una fórmula -«en absoluto condominio», puntualizó- para aliviar ese malestar. «Porque ese malestar que se manifiesta de manera agresiva en algunos sectores y en la prensa, está ahí».

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Una voz disonante

La de Máximo Cajal es una voz disonante y políticamente correcta en tanto se aparta de las tesis oficiales que, desde siempre, han servido de argumento para justificar la permanencia de España en Ceuta y Melilla. Para el ex embajador no es válida la teoría de que España ocupa las dos plazas desde siglos antes de la existencia del reino de Marruecos. Según Cajal, tampoco en el siglo XIV España podía considerarse un país en tanto se configuraba en reinos independientes. Al tiempo recuerda que cuando se ocuparon aquellos territorios un rey de Fez, antecedente remoto del reino de Marruecos, reivindicó las tierras.

Cuando se le planteó si podía concretar las fórmulas para zanjar el contencioso sobre Olivenza reconoció: «No, no tengo fórmulas», al tiempo que rechazaba cualquier tipo de estatuto que supusiera cesión de soberanía. Ese mismo rechazo es aplicable a Gibraltar.

Tras reconocer que no tiene la llave para arreglar los problemas del mundo, no podía decir si el mero reconocimiento de la legitimidad de las pretensiones portuguesas puede poner fin al litigio. En cualquier caso señalaba que «algo habrá que hacer para resolverlo».

Cajal, que ha ocupado cargos de alta responsabilidad en el Ministerio de Asuntos exteriores reconocía que cuando los ejerció no llegó a manifestar su opinión acerca del tema oliventino. Sí lo hizo en cambio, aunque de forma menos enérgica, respecto a Ceuta y Melilla, «aunque los resultados que ya se sabe».

HOY
23/1/2004


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