domingo, fevereiro 29, 2004

A História em Espanha e em Portugal





Persistência da Memória
Salvador Dalí, 1931


«A História é o produto mais perigoso que a química do intelecto tem elaborado»
Paul Valéry


     A História não é uma ciência como as outras, nem uma disciplina que se ensine com os mesmos objectivos das outras disciplinas. Seja em ditadura seja em democracia, não é inocente a escolha dos programas, a focagem que se dá a certas temáticas, a orientação que se confere a determinados assuntos, a correlação que se estabelece entre países e regimes ou simplesmente a omissão de algumas matérias. A História é uma química demasiado perigosa para se deixar ao acaso ou ao arbítrio dos que a ensinam. É uma arma de manipulação maciça que os governos de todos os países não deixam de usar com os fins que lhes parecem mais apropriados, mesmo quando as constituições, como é o nosso caso, proíbem que se confira ao sistema educativo qualquer finalidade ideológica.

     Olhando para a Espanha, comparando o que se ensinava e o espírito com que se ensinava História no Franquismo com o que se ensina e com o espírito com que se ensina História nos tempos actuais, ficaremos com uma imagem clara do quanto se avançou depois da morte do Generalíssimo ou de como se está ainda quase no mesmo lugar.

     Observando o que se ensina e o espírito com que se ensina História no Portugal actual, comparando a realidade que se nos antolha cá com o que se passa lá, em Espanha, ficamos a um tempo aterrados com o sentido e o alcance da política educativa portuguesa, para logo percebermos o que está em causa e compreeendermos o processo que está em marcha.

     Colocamos aqui dois singelos textos: um espanhol, sobre a manipulação do ensino da História em Espanha; outro português, também sobre a manipulação do ensino da História em Portugal. Estranhamente, ou talvez não, apesar de os meios e de os fins serem completamente antagónicos, caminham na mesma direcção: a constituição da Grande Espanha e o desaparecimento de Portugal. Normalmente isto já seria grave. Mas é ainda mais grave porque está a ser feito também e sobretudo pelos dirigentes "portugueses"...

Em Espanha


¿historia de que?

     Uno estudia historia y hoy por hoy no sabe para qué. El poder marca los criterios académicos, lo que es verdad y lo que no o, peor aún, lo que pasó y lo que no pasó. Me apasiona la historia, creo que está ahí el origen de todo, los procesos de cambio, la evolución, revoluciones, crisis, guerras... es decir, el devenir del mundo desde hace 2,5 millones de años, cuando se conforman los primeros hombre modernos. Pues bien, ahora Televisión Española, en una burla más a la inteligencia y en un asalto más a la historia, tras la gloriosa patochada "Cuéntame (cómo ve la burguesía) cómo pasó", saca la serie "Historia de España" y no se le ocurre otra cosa que empezar con el Homo Antecesor de hace un millón de años. Los señores del Pirulí nos van a demostrar cómo un ser que ni siquiera conocía el fuego era español, católico y del PP. Por supuesto, Portugal dejó de existir hace mucho tiempo e incluso en el logo de la serie sale dentro de la unidad española. Creo que va a ser una de las mayores burlas al conocimiento histórico y que sólo responde a una estrategia de imponer el españolismo en el pensamiento de la gente. Tengo muchos compañeros que, aun pasando de política, se han dado cuenta de que lo que llaman España no es y no ha sido nunca una unidad, y que esa supuesta unidad sólo se dio por la fuerza y sólo se mantiene con el ejercicio de la violencia, ya sea física o ideológica.

     Decía Arsuaga, el jefe de los investigadores de Atapuerca, que el hombre que llegó a Europa era alto, bien alimentado y negro. Seguramente no lo escucharon los de la derecha y pondrán a uno bajito, mal alimentado y blanco, todo un español.

     Parafraseando a Felipe II, que dijo «el sol no se pone en el Imperio», yo digo «el sol está apunto de ponerse del todo».

Aitor Bayón - Estudiante de Historia en la Universidad Autónoma de Madrid


Em Portugal


O que se ensina e não ensina

     A História de Portugal está quase banida do sistema educativo português. Um pouquinho no primeiro ciclo do ensino básico, a antiga escola primária, mas que facilmente se esquece, seja pela tenra idade dos petizes seja pelos métodos actuais de ensino que fazem gáudio em definhar a capacidade de memória mesmo que os mais reputados cientistas da actualidade tenham vindo a revalorizar esta faculdade mental. No 5.º e 6.º ano de escolaridade ensina-se mais qualquer coisita, numa disciplina de História e Geografia de Portugal, cada vez com menos horas lectivas e menos conteúdos. A partir dos 12 anos de idade acabou o ensino da História de Portugal. Daqui até ao 12.º ano só há História Universal, o mesmo é dizer História da Europa. De per meio da história dos outros, aparece aqui e ali um minúsculo capítulo da história pátria: a Romanização da Península Ibérica, em vez da Romanização do actual território português; os vestígios islâmicos na Península Ibérica e não especificamente em Portugal; a Reconquista Cristã que ainda comporta um capítulo sobre a Formação de Portugal; depois uma breve alusão ao Românico ou ao Gótico em Portugal; e finalmente a Crise de 1383/85, por enquanto... Talvez um dia se lembrem - não será uma questão de coragem - de substituir este tema pela história dos reinos peninsulares... No 8.º ano ainda aparecem os Descobrimentos Portugueses, mas que são apresentados cada vez mais como europeus ou ibéricos. Daqui em diante um pouco da União Ibérica e uma singela página sobre a Restauração, a obra do Marquês de Pombal e quando já não há mais tempo para dar o programa que falta viriam as invasões francesas e as revoluções liberais que quase não se leccionam. Com alguma sorte, o professor do 9.º ano tentará acabar o programa do 8.º. E então ainda falará da Revolução de 1820, de outras revoluções e lutas liberais e do Ultimato Inglês. No 9.º ano há temas que interessam ao regime vigente ensinar, a Primeira República, a Participação Portuguesa na Grande Guerra, o Estado Novo posto ao lado do Nazismo e do Fascismo como convém a um ensino imparcial... e finalmente o 25 de Abril. Também com uma imparcialidade científica inatacável, do Estado Novo vem a cartilha completa dos seus defeitos sem se falar em qualquer das suas realizações ou progressos, enquanto do 25 de Abril vem toda a sublime poética da liberdade sem a menor referência às tragédias que lhe sucederam. Enfim, neste caso, ambos os regimes se igualam em demagogia e manipulação. Portugal era o paraíso terreal nos tempos do Doutor Salazar e passou a ser um paraíso ainda mais perfeito depois dos Heróis de Abril...

     Os programas do ensino da História devem pouco ao rigor científico e à honestidade intelectual, mas como a História não é uma ciência como as outras e a disciplina de História também não é uma disciplina como as demais, sem ou com democracia, de pouco importam certas maquinações e silêncios, porque o ensino da História tem outros fins que não os científicos e, ontem como hoje, desenvolver o espírito crítico da juventude, dos futuros cidadãos deste País, é coisa de escasso interesse e que até pode ser incomodativo para quem está no poder... Se o Povo é sereno, convém que continue a ser sereno e estúpido e de preferência cada vez nais europeu e ibérico porque, se ser português já é perigoso, ser português nacionalista ou patriota ainda é mais perigoso numa Ibéria onde só o nacionalismo espanholista é intelectualmente são e sacramentalmente imaculado....

     Convém ainda ter presente que no 9.º ano há uma dose maciça de europeísmo; que a nossa História é uma triste e vil gesta sem heróis, em que a Pátria é um entidade que se evaporou; que não se incutem quaisquer valores nacionais; que não há um Homem ou um Povo Português e muito menos desígnios nacionais... Ensina-se e estuda-se História de Portugal com o mesmo sentido ou o mesmo espírito que se ensina a História dos Fenícios ou dos Índios da Amazónia. A muito custo, está a tentar-se agora que os meninos e meninas aprendam a letra e a música do Hino Nacional. Mas houve agitação na República (na 2.ª para uns, 3.ª para outros e 4.ª já para uns tantos) quando um dos últimos governos descobriu que grande parte dos portugueses não sabe "A Portuguesa", tal como não sabe ler, escrever ou contar...Tudo isto é coerente com uma escola que só produz ignorantes e incompetentes, mas imbuídos de um sentimento europeu e peninsular...

     Os poucos que transpõem a barreira do 10.º ano vão ter de repetir quase completamente os conteúdos do 7.º, 8.º e 9.º anos e submetidos a um programa em que os temas de História de Portugal são apenas acessórios ou marginais. Mas no 10.º ano há uma marca ainda mais iberista. Os Descobrimentos Portugueses são integrados numa unidade que dá pelo sugestivo título de Impérios Ibéricos... E estuda-se o Império Espanhol quase com a mesma profundidade com que se estuda o português. Se a isto somarmos o utilíssimo ensino da língua castelhana com a comercial designação de "Espanhol" e a tentativa de suprimir o ensino dos Lusíadas, teremos um panorama quase completo do projecto que se esconde por trás desta vergonhosa e desavergonhada aleivosia.

     Almeida Garrett legou-nos esta frase que há poucos anos estava no frontispício da página oficial do Ministério da Educação: «Eu tenho que nenhuma educação pode ser boa se não for eminentemente nacional». Este ministério foi muito coerente ao retirá-la, após uma carta minha e um artigo que sobre o assunto publiquei. Na verdade o actual sistema educativo nada tem de eminentemente nacional. Almeida Garrett pode ficar entristecido por não valorizarem o seu pensamento, mas ao menos fica reconfortado por não carecer de se revolver no túmulo perante o escândalo que era o Ministério da Educação propalar uma coisa e fazer outra completamente contrária. Diferentes seriam as coisas se a frase fosse de Unamuno e se se referisse ao nacionalismo espanhol, para toda a Ibéria... Para esse projecto, o sistema educativo português dá um contributo de grande mérito. Na acção em marcha de destruição do sentimento e da consciência nacionais, talvez nenhum governo espanhol de ocupação fizesse melhor trabalho do que aquele que os iluminados da Avenida 5 de Outrubro têm realizado em prol do euro-iberismo...

Mário Rodrigues - Professor de História



sábado, fevereiro 28, 2004

28 de Fevereiro


     O 28 de Fevereiro é uma data riquíssima na história do desporto português:




Requiescat in pace



     «A política ibérica de Afonso XIII parece ter sido sempre a de espreitar uma oportunidade para dominar Portugal. Fracassadas as tentativas de invasão por monárquicos portugueses, desenvolvem-se planos mais elaborados para uma intervenção de Madrid»
Medeiros Ferreira, Um Século de Problemas


     Nascendo em Madrid em 1886 e falecendo em Roma, no exílio, em 1941, Afonso XIII, Rei de Espanha, conheceu na sua infância o trauma da liquidação do império colonial espanhol em resultado da Guerra Hispano-Americana e no fim do seu reinado a instauração da República. Pelo meio viveu o sucesso da constituição do protectorado espanhol em Marrocos e assistiu a algum desenvolvimento económico interno patente nas exposições internacionais de Sevilha e de Barcelona.

     Casou com a princesa britânica Victoria Eugenia de Battemberg, sobrinha de Eduardo VII, e viu na aproximação à Grã-Bretanha um meio privilegiado de anular internacionalmente o Estado português. O encontro de Cartagena de 1907 entre Afonso XIII de Espanha e Eduardo VII de Inglaterra, um ano após este casamento, fez soar em Lisboa o alarme da ameaça de esboroamente da Aliança Luso-Britânica. Embora Londres tentasse desvalorizar perante as autoriades portuguesas o significado de tal aproximação hispano-britânica, certo é que em círculos militares e diplomáticos britânicos germinou então a convicção de que era mais importante uma nova aliança com a Espanha do que a velha aliança com Portugal. Quando Afonso XIII se aproximou também de Paris, assinando o acordo hispano-francês de 1912, restou a Portugal simular alguma aproximação à Alemanha.

     Já antes da implantação da República, alguns republicanos receando a cobiça de Afonso XIII, solicitavam a Londres garantias de uma não intervenção britânico-espanhola em caso de derrube da Monarquia.

     E imediatamente após o 5 de Outubro, entre 1910 e 1912 Afonso XIII empreendeu várias viagens a Inglaterra com vista a obter o consentimento britânico à invasão espanhola de Portugal.

     Agora que se tem falado tanto do duvidoso projecto do TGV e especialmente do seu perigoso traçado vem a propósito lembrar que já em 1913, José Relvas, nosso representante em Madrid, comunicava para Lisboa que a rede de caminhos de ferro estratégicos espanhóis correspondia «ao plano de invasão de Portugal pela Espanha»...

     A ambição de Afonso XIII conheceu um eloquente episódio em Maio de 1915 quando, na sequência da revolução de 14 de Maio, que depôs a ditadura de Pimenta de Castro, três navios de guerra espanhóis se exibiram no Tejo...

     Afonso XIII morreu a 28 de Fevereiro de 1941. Faz hoje anos. Requiescat in pace.

     Infelizmente, porém, ideias como as dele - que não são apenas dele mas de um povo inteiro - persistem ainda hoje e, qual epidemia virolenta, recidivam periodicamente cada vez mais ameaçadoras e multiresistentes. O pior de tudo é que alguns dos nossos - dos nossos concidadãos - são felizes portadores de tal doença letal e não se poupam a esforços para a disseminarem por toda a comunidade nacional. Parece cada vez mais difícil extirpar esses perigosos focos de infecção, firmemente enraizados nas mais variadas paragens, desde São Bento ao Terreiro do Paço...






sexta-feira, fevereiro 27, 2004

27 de Fevereiro de 1801



     A 29 de Janeiro de 1801, a França e a Espanha haviam enviado a Portugal um ultimato, exigindo o abandono da Aliança Luso-Britânica e o encerramento dos portos portugueses aos ingleses. Além disso, a França exigia uma pesada indemnização em dinheiro enquanto a Espanha reclamava a revisão das fronteiras e a entrega de algumas províncias para garantir que a Grã-Bretanha lhe devolvesseas ilhas de Trindade, Mahon e Malta.

     Como Portugal não se submeteu a estas condições, a 27 de Fevereiro a Espanha declarou guerra a Portugal. Em Maio, forças francesas e espanholas invadirão o Alentejo e perder-se-á Olivença.



     Passam hoje 203 anos dessa declaração de guerra espanhola. Neste mesmo dia, hoje, no Parlamento, alguns deputados denunciam os espanholismo do Primeiro-Ministro que foi a Madrid declarar não o seu ou do seu partido mas o apoio de Portugal ao PP espanhol...

     203 anos depois como são diferentes as coisas em Portugal...



Um dos maiores "oliventinos"




     No dia 27 de Fevereiro de 1901, em Campo Maior, nascia Rodrigo Carlos Dordio Rosado de Figueiredo Pereira Botelho.

     Ainda jovem, apenas com o posto de Tenente, na altura da Guerra Civil Espanhola, quando o Governo de então convidou os militares portugueses a irem servir as tropas nacionalistas de Franco, ofereceu-se ao Comandante da sua unidade para ir tomar Olivença.

     Durante toda a vida foi um intrépido defensor de Olivença Portuguesa, ele e toda a sua família.

     O seu patriotismo e o inigualável amor que nutria pela cativa Olivença não o impediram de livrar da morte quantos republicanos fugiram para Campo Maior para se livrarem dos massacres de Franco

     Leia-se esta breve biografia do Coronel Rodrigo Botelho, um dos maiores "oliventinos" que este País conheceu.




Escola de virtudes




     Num dia como hoje, a 27 de Fevereiro de 1500, nascia D. João de Castro, um dos varões mais ilustres que esta Pátria deu à luz.

     Serviu o Rei e o Reino sempre e onde lhe foi pedido, fosse em Tunes em auxílio de Carlos V, em Tânger assistindo D. Duarte de Meneses, no Mar Vermelho e no Suez apoiando D. Estêvão da Gama, em Diu defendendo a fortaleza dos ataques turcos ou em Goa como Governador-Geral e Vice-Rei.

     A todos comoveu e enquanto houver Portugueses ninguém esquecerá o Homem que empenhou os ossos do próprio filho e as suas barbas para garantir um empréstimo destinado a reparar as muralhas de Diu.

     Quando tantos sugam o Estado e os seus cidadãos para se servirem só a si e aos seus comparsas, há que honrar quem empenha o mais precioso que tem para servir Portugal.

     Num dia como o de hoje, em que certo vendilhão da pátria anunciou a venda do pouco que ainda resta de português, parece fora de moda lembrar D. João de Castro. Uma vez mais, estamos pregando aos peixes, sem que o mais graúdo e miserável deles - aquele que mais deveria escutar esta lição de proveito e exemplo - ouça as nossas palavras...


Antes morrer reinando que acabar servindo




     Num dia como hoje, 27 de Fevereiro de 1666, morreu D.ª Luísa de Gusmão, esposa de D. João IV, primeira rainha da Dinastia de Bragança.

     Nascida na Andaluzia, filha de D. Manuel Peres de Gusmão, 8.º Duque de Medina Sidónia, e de D. Joana de Sandoval, filha do 1.º Duque de Lerma, D. Francisco Sandoval, parecia ao ministro castelhano Conde-Duque de Olivares a esposa perfeita para manter o Duque de Bragança afastado de qualquer pretensão independentista.

     Acabou por ser ela, quando receoso do poder de Filipe IV o Duque de Bragança hesitava a tomar a direcção da revolta que eclodira no 1.º de Dezembro de 1640, a estimular o futuro D. João IV a assumir a Coroa portuguesa e a pugnar pela Independência de Portugal.

     Ficou imortalizada numa frase que lhe tem sido atribuída: «antes rainha por um dia do que duqueza toda a vida».

     Muito lhe deve a Independência de Portugal. E que exemplo tão proveitoso nos legou, sobretudo hoje quando alguns, temendo serem livres e donos do seu destino, sentem alívio ou alegria em tornarem-se servos ou vassalos de outrem...


É pecado ser nacionalista

     Segundo Niceto Blázquez, dominico e professor de Ética e Deontologia na Universidad Complutense de Madrid, quem se autoconsidere nacionalista está "en pecado", principalmente por ser contraditório "con la vocación universalista de la Iglesia Católica". Sim, tão surrealista como parece é o que afirma este seglar no seu libro El nacional clericalismo vasco.
     Por suposto que para este senhor o nacionalismo espanhol que tão bem encarna o seu superior Msr. Rouco Varela não merece tais críticas. O nacionalismo, com efeito, pode ser mau, mas não é a Igreja Católica espanhola, instituição reaccionária onde as houver, a mais ajeitada para dar lições de ética e de moralidade em nenhum terreno, sobretudo no político. Na imagem, cartaz católico a favor do Alzamiento do ex-ditador Francisco Franco.

Treme... Espanha

     Segundo Jaime Mayor Oreja, ex-ministro e chefe do Partido Popular no País Basco, os nacionalistas estão esperando nas eleições do 14 de março um fracasso do seu partido porque "quieren un Gobierno débil en España". Então, estando assim as cousas, "cuando se lance la ofensiva [nacionalista] a partir del 14 de marzo desde el País Vasco y Cataluña, ETA sabe que el PSOE estará neutralizado" como partido "nacional" espanhol polos seus acordos de governo com a ERC na Catalunha.

     Quer dizer, os nacionalistas bascos e catalães trabalham para a ETA por um fracasso do PP e uma neutralização do PSOE, ou? "Los problemas territoriales van a ser más graves de lo que pensamos". Estar-se-á referindo às discussões entre aragoneses e murcianos polo transvasamento de áugua do rio Ebro, que segundo os primeiros é "desnecessário" e "inútil" mas para os segundos é "vital"? Ou talvez fala das tensões entre Astúrias e Leão polos limites das suas respectivas comunidades, com alguns lindes que se querem cambiar? Pode ser que fale o ex-ministro das mútuas invejas entre Andaluzia e a Extremadura no aspecto agrário? Não, o excelso ex-ministro segue dando razões para duvidarmos da sua credibilidade em termos políticos. Já não é que não seja rigoroso, já não é que não seja cumpridor (1, 2, 3) com o seu trabalho, já não são as suas incomptabilidades como cargo público, mas a sua completa paranóia com os nacionalistas democráticos aos que associa constantemente com o terrorismo e com todos os males, vendo catastrofismo por todas partes. "Con el partido socialista estaría en peligro la Constitución, el éxito de la transición (...) y tendríamos otra España distinta a la constitucional, lo que sería una catástrofe en la historia constitucional de España". Treme... Espanha, que se não votas polo PP virá o lobo Carod-Rovira a lombos da ETA e do PSOE e quitar-te-ão as pensões e o 'teu' país!

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

És separatista, ergo, és terrorista

     Hoje em El Mundo, jornal do centro-direita espanhol, há uma coluna do ultranacionalista Federico Jiménez Losantos -editor do também ultranacionalista Libertad Digital- onde de diz, textualmente: "la imprescindible defensa de la nación y la Constitución contra el terrorismo y el separatismo, valga la redundancia" -o negrito é meu-. Desde quando numa mente democrática pode conceber-se que as ideias discrepantes com o estabelecido como 'correcto', caso do separatismo, podem ser consideradas como uma afrenta à vida e à liberdade como faz o terrorismo? Em nenhuma, pois até pessoas pouco suspeitosas compartilhar as ideias dos 'nacionalismos periféricos' como Carlos Mendo ou Josep Ramoneda -sobretudo o segundo- desvincularam até hoje o separatismo do terrorismo, embora alguns separatistas utilizem o terrorismo como método -caso da ETA-. Eis a diferença: o método. E é uma notável diferença, porque o facto de separatistas e etarras terem o mesmo objectivo -a independência-, é o método o que permite que uns sejam legais -os partidos independentistas como a Esquerra Republicana de Catalunya ou Eusko Alkartasuna- e outros vulgares assassinos perseguidos pola Lei.

     Apesar de o método ser uma diferença notável e crucial que de nenhum jeito pode desvirtuar as reclamações independentistas -com uma forte e sólida base sócio-histórica que as justifica-, nem todos os agentes do nacionalismo espanhol o vêem assim, e um claro exemplo é Luis María Anson, da Real Academia Española -da língua, que eles dão já por suposto-, director do jornal La Razón e chefe da futura rainha Letizia Ortiz quando ela trabalhava no jornal ABC.



     O 'jornalismo' que pratica La Razón é qualquer cousa agás jornalismo, porque o jornalismo exige uma ética da que este jornal carece. E se não que lho perguntem a Carlos Carnicero, a quem Anson difamou recentemente desde a sua secção 'Canela Fina' e a quem menosprezou polo seu 'volume' físico. E no que respeita aos independentistas, ainda mais, prescindindo de toda ética e permitindo-se fazer portadas nas que associa claramente a Josep Lluís Carod-Rovira com ETA como se fossem 'amigos', o que segundo a legislação vigente no Reino Unitário da Espanha é um facto constitutivo de flagrante delito.

     Os terroristas (bascos) são separatistas, então, os separatistas são terroristas. Eis as 'valiosas' lições que se podem tirar destes 'profissionais' e 'éticos' praticantes da nobre profissão que é o jornalismo. Concluo, pois, que eu sou um terrorista. Ou?

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Unica semper avis




     Num dia como hoje, 25 de Fevereiro de 1558, morria em Taraveruella, próximo de Mérida, Dona Leonor, Rainha de Portugal, terceira esposa de D. Manuel.
     Era filha primogénita de Filipe I de Castela, Arquiduque de Áustria e Senhor dos Estados de Flandres, e da Rainha D. Joana, herdeira da Coroa de Castela e Aragão, na qualidade de filha dos Reis Católicos, Fernando e Isabel.

     Na perigosa política de casamentos régios desta época entroncará a fatídica solução dinástica de 1581 e a consequente União Ibérica. A lição de não buscar noiva em Castela, ensinada e aprendida na Primeira Dinastia, foi tragicamente esquecida... A sabedoria dos nossos maiores não é mera antigualha. Quase sempre se revela a verdadeira mestra da vida, tanto para os Homens como para as Nações...

PortOgal


     A primitiva letra do hino "A Portuguesa" tinha por refrão a frase "Contra os Bretões, Marchar, Marchar".

     As circunstâncias do seu nascimento, logo após o Ultimato Inglês de 1890, ao criarem um fervente espírito anti-britânico, justificaram tal arrobo ultranacionalista.

     Depois das jocosas e injuriosas afirmações do treinador do Manchester United, proferidas dias antes do jogo desta noite, relativamente ao futebol português, bem que se legitimava a restauração de tal refrão.

     Não só por jogar uma equipa portuguesa, mas sobretudo pela ofensa cometida pelo "senhor" Alex Ferguson sobre todos os Portugueses, hoje, pondo de parte as doenças clubistas, marchávamos todos contra os bretões.

     Mostrámos, como muitas vezes na nossa História passada, quanto vale o brio nacional e onde se pode chegar com trabalho e inteligência.

     O excesso de convencimento e de arrogância tem feito perder muitos homens e muitas nações. Uma vez mais se viu como David pode vencer Golias.

     O futebol, uma das últimas manifestações do patriotismo e da virilidade dos povos, pode ser uma proveitosa lição para todos os demais domínios da nossa vida colectiva.

     Viva PortOgal!


"Tensão Pensinsular"



     A geografia da Península Ibérica constitui para nós uma fatalidade e a dualidade política nela existente representa para a Espanha um trauma difícil de tolerar. A «aberração» portuguesa é vista por Madrid como uma amputação à sua almejada totalidade que só deveria ter por limites o mar e os Pirenéus. A independência portuguesa é para Castela um estímulo à secessão do País Basco, da Catalunha e da Galiza que urge eliminar e ao mesmo tempo constitui a diferença entre uma Espanha de segunda linha na Europa e uma potência de primeira grandeza entre os Estados europeus. O desaparecimento de Portugal como Estado independente e a sua integração em Espanha tornaria este país equiparável ou muito aproximado à França, à Itália e à Inglaterra, tanto em dimensão geográfica como em população. Estes são, pois, os dois grandes desideratos da integração de Portugal: acabar de vez com qualquer possibilidade de apoio exterior à autodeterminação das suas províncias inquietas, impondo o poder de Madrid como uma inevitabilidade a todas as nações rebeldes da Ibéria e, ao mesmo tempo, eliminar a diferença de potencial que subsiste entre Madrid, Paris, Roma e Londres.

     Mas a solução para o problema da passagem da Espanha de uma simples potência europeia para uma potência mundial encontra-se também em Portugal, ou melhor, no que resta do Mundo Português. O objectivo aqui já não é a integração política mas a hegemonia cultural e sobretudo linguística: a expansão da Hispanidade, especialmente no Brasil, mas sem descurar a antiga África portuguesa. Os instrumentos para o conseguir são facilmente identificáveis: a constituição de uma Comunidade Hispano-Americana na qual o português se dilua, para o que está em marcha a adopção do castelhano nas escolas brasileiras, e a cooperação com os PALOP’s, que algumas vezes Madrid está concretizando ao lado de Portugal para facilitar a penetração e dissimular os seus intentos. Para tudo isso, há que estrangular a evolução da CPLP, desiderato em que a Espanha tem recebido um prestimoso apoio francês, por forma a impedir que esta organização possa evoluir no sentido de uma verdadeira Federação de Estados de Língua Portuguesa, projecto totalmente incompatível tanto com a Hispanidade como com a Francofonia.

     Mas, para tal é imperioso que Portugal ou, pelo menos, as suas elites dirigentes continuem a acreditar que a União Europeia e o seu sucedâneo mais concrescível e perigosamente mais duradouro – a União Ibérica – são os únicos espaços de integração viáveis para Portugal, na justa medida em que aí está a sua inviabilidade como Estado independente e aí reside o seguro aniquilamento de um Portugal livre e autodeterminado, em especial se se avançar para a Europa Federal.

A Batalha de Aljubarrota de 14 de Agosto de 1385:
Ensinamentos e reflexões sobre o momento actual

(Excerto do Discurso pronunciado na Capela do Fundador,
no Mosteiro da Batalha, no dia 14 de Agosto de 2001)



bússolas, cartas de marear e demais parafernália

Dos diversos incidentes e episódios que constituem a sua vivência colectiva, os povos vão extraindo lições e ensinamentos. Elaboram, assim, as bússolas, «cartas de marear» e demais parafernália com que se orientam e traçam o seu rumo.
E, por aí, o povo português criou aquela tão lapidar observação: «de Espanha, nem bom vento nem bom casamento».
Entendimento que não é fruto do arbítrio ou do acaso, antes coroa uma experiência histórica concreta.
Pertence às lideranças interpretar o sentimento popular e dar-lhe acertada substância política e diplomática.
Problemático é se não existe verdadeira liderança e os políticos são meros agentes dos seus individuais interesses...
Melhor ou pior, quando quem governa conhece o país e as suas circunstâncias, encontra modo de interpretar cabalmente a emoção e a vontade populares e dar-lhe apropriado desenvolvimento.
O que se pode exemplificar com o que em seu tempo disse Sebastião José de Carvalho e Melo, que viria a ser o Marquês de Pombal:

A Espanha «[...] há de ser sempre émula natural e necessária da nação portuguesa [...]»
(Cit. em Nova História de Portugal, vol. VII)


terça-feira, fevereiro 24, 2004

Desafio: "Tensão peninsular"


     O Antonio Balbino Caldeira, Do Portugal Profundo, lança-nos um interessante desafio - responder à seguinte questão: «que tensão é esta na Península Ibérica que liga o imperialismo castelhano sobre Portugal e as tentativas de autonomia do País Basco, Catalunha e Galiza?».

     Um desafio vital, verdadeiramente vital, que tenho amanhã e muito provavelmente nos próximos meses que enfrentar, impede-me de fazer grandes reflexões. De resto, perante tal desafio vital, perde sentido para mim qualquer outro desafio.

     Desafio, assim, os restantes colaboradores do Portugal e Espanha a tentarem responder às pertinentíssimas interrogações do Antonio Balbino Caldeira.

     O meu contributo reduz-se, para já, a transcrever um excerto do Discurso que pronunciei na Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, no dia 14 de Agosto de 2001. Já o coloquei no "blog". Aparecerá apenas amanhã, dia em que talvez comece para mim o maior desafio da minha vida, o da minha própria vida.


Federico Trillo: "un ministro tan lenguaraz como inepto"




Las tijeras de Trillo


En los nueve meses transcurridos desde la catástrofe aérea del Yak-42, que costó la vida a 62 militares españoles en Turquía, el ministro Federico Trillo se ha negado sistemáticamente a asumir las responsabilidades políticas de su departamento en la decisión de alquilar un avión de seguridad tan dudosa como aquél. El burladero usado por el ministro ha sido el de la supuesta inexistencia de informes oficiales previos que pusieran en cuestión la seguridad de los aparatos ex soviéticos alquilados para el transporte de las tropas españolas a Afganistán. Trillo ha rechazado impertérrito diversos partes que expresaban quejas previas de nuestros militares, a veces con apoyo de fotos, sobre el confort y la seguridad de esos aviones.

Ahora el ministro ha quedado desnudo a través de una nota de rectificación enviada a este periódico por su jefe de prensa. Por ella se ha sabido que Defensa remitió al Congreso un documento mutilado de los servicios de inteligencia del Ejército de Tierra (CISET). Este documento contiene una denuncia precisa sobre las condiciones de seguridad de un vuelo realizado en el mes de abril, un mes antes del infausto accidente. El documento del CISET recomienda expresamente realizar el transporte con aviones de pasajeros, los denominados chárteres. Justamente este párrafo no estaba incluido en la versión del informe del CISET enviada al Congreso.

Trillo y sus más directos colaboradores ya no pueden argüir que no había ningún documento oficial sobre este asunto. Lo había. Además, han enviado al Congreso una versión mutilada del mismo. Los familiares de las víctimas, a los que el ministro prometió una transparencia total, al igual que los representantes de la soberanía popular, deben disponer de inmediato de ese texto, que, según Defensa, no constituye ningún secreto de Estado.

Afirma Trillo que el accidente "se hubiera producido" aunque él no hubiera sido ministro. Pero es en la contratación y gestión del transporte de las tropas destacadas en Afganistán, y no en el accidente en sí, donde residen las eventuales responsabilidades políticas que tendría que haber depurado el Parlamento si el PP hubiera permitido una comisión de investigación. También asegura que tras el accidente presentó su renuncia a Aznar y que éste le instó a continuar. Es otro grave error de Aznar en este último y accidentado tramo con el que culmina su estancia en La Moncloa. Debería haber aceptado la renuncia, lo que, además, hubiera ahorrado a España el bochorno provocado por los recientes comentarios agresivos sobre Marruecos de un ministro tan lenguaraz como inepto.

El País, 24 de febrero de 2004




D. José




     Num dia como hoje, 24 de Fevereiro de 1777, morria D. José I, o 25.º Rei de Portugal.

     Casou-se com uma princesa espanhola, D. Mariana Vitória, filha de Filipe V e da rainha D. Isabel Farnésio.

     Durante o seu reinado, em que se destacou a grande obra do seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, foram vários os acordos internacionais entre Portugal e Espanha:





segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Uma capa polémica





     O diário ultra-espanholista "La Razón" publicou uma capa que está a gerar grande polémica na Catalunha: nada mais que uma montagem de um aperto de mão entre Carod-Rovira e um encapuçado da ETA.

     Como retaliação, está a ser feita uma campanha instando a que não comprem produtos das empresas do Grupo Planeta, como a Editorial Planeta, Columna, Emecé Editores, Espasa, Ariel, Destino, Seix Barral, Temas de hoy e Ediciones Minotauro.


A morte saiu à rua




     Num dia como hoje, 23 de Fevereiro de 1987, morreu Zeca Afonso.

     Profundamente admirado na Galiza, é ali visto ainda hoje como um símbolo da unidade cultural galego-portuguesa. Cantou na Galiza pela primeira vez em 1972 e colaborou com músicos galegos. Vários têm sido os eventos culturais realizados na Galiza em sua homenagem.




domingo, fevereiro 22, 2004

Política de canhoeira


     No momento mais quente da apresentação do Plano Ibarretxe, Madrid organizou um exercício militar no País Basco que incluía bombardeamentos aéreos, ataques ao solo e manobras de intimidação nos meios rurais onde os soldados espanhóis exibiam as suas armas divertindo-se a apontar à cabeça dos transeuntes...

     Por alturas das eleições na Catalunha, estando em expectativa um bom resultado dos intependentistas, Madrid organizou nesta região levantina uma enorme parada militar, para exibir ostensivamente o seu poder bélico.

     Quando Saddam Hussein, antigo amigo americano, caiu em desgraça e passou a ser visto no Ocidente como um cão tinhoso prestes a ser abatido, logo Madrid eriçou o pelo para parecer ao mundo maior do que é, afiou os dentes e colocou as garras de fora.

     Se alguém tivesse dúvidas sobre a perenidade do espírito de arrogância, prepotência e aspiração de domínio castelhado, perdê-las-ia com as mais recentes declarações do Ministro da Defesa de Espanha, Federico Trillo: «A mí lo que me habría gustado es ser ministro de Defensa hace ocho años. Pero sólo para una cosa. Me hubiera gustado para haber tomado la Isla Perejil ocho años antes y que nuestros pescadores pudieran pescar en las aguas de Marruecos». O mesmo ministro organizou para a próxima semana uma visita de José María Aznar ao aquartelamento de Rabasa, com o fim de homenagear os soldados que participaram na recuperação de Perejil, com o argumento de que «por primera vez en setenta años, fueron capaces de defender la dignidad nacional frente a Marruecos».

     Quem não gostou desta afirmação da "dignidade nacional" espanhola foi Marrocos. O diferendo entre os dois países acaba de se reacender.

     Poderíamos pensar que estamos aqui apenas perante uma desastrada actuação isolada de um ministro. Mas muito mais do que um facto pessoal e ocasional, estamos diante de mais um episódio da política de canhoeira em que a história castelhana é particulamente pródiga... Os velhos hábitos são difíceis de irradicar quando a sua motivação é instrinsecamente genética e definidora do carácter de um povo e sobretudo da sua classe dirigente.


sábado, fevereiro 21, 2004

Sin comentarios



Trillo dice que habría preferido llegar a Defensa "hace ocho años para tomar Perejil"

El ministro de Defensa, Federico Trillo, ha vuelto a levantar la polémica tras la "broma mal interpretada" con el incidente protagonizado con una periodista de la Cadena SER, a la que lanzó un euro por preguntar sobre las armas de Irak. Esta madrugada, Trillo ha afirmado que le hubiera gustado ser titular de Defensa "hace ocho años" para tomar Perejil "y que nuestros pescadores pudieran pescar en aguas de Marruecos".

El País, 21 de febrero de 2004


Léase más sobre este asunto y la condecoración de los militares que intervinieron en la toma de la Isla de Perejil que José María Aznar realizará en la semana próxima.


Pensamento do dia


     «As relações entre povos não são estáveis e muito menos eternas. Preservar uma autonomia, mesmo de muitos séculos, é um combate que não está ganho de uma vez por todas. Mas antes de nos alrmarmos e sucumbir a um pânico sem fundamento, o melhor é sabermos o que é a Espanha e quem somos nós. Não somos apenas nós que temos (virtualmente) problemas com a Espanha. Ela tem-nos com outros, mas tem-nos sobretudo consigo mesma. Fazemos nós parte deles? Não creio. Já fizemos. Já não podemos fazer».
Eduardo Lourenço, Visão, 19 de Fevereiro de 2004

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Punto de Vista



El Pais, 20 de febrero de 2004



quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Espanhóis tentam travar Gibraltar

     O Governo Espanhol decidiu levar o Reino Unido perante o Tribunal Europeu, na tentativa de travar a participação de Gibraltar nas próximas eleições europeias. Pretendem os espanhóis que o Tribunal Europeu anule a incorporação do Rochedo no sistema eleitoral do Reino Unido, isto porque o sistema eleitoral, em Gibraltar, permite o voto de não-europeus, desde que membros do Commonwealth.

¿Nombres trocados?





A Ministra ou o Ministro dos Negócios (dos) Estrangeiros...


     Na senda do pregador dominical da TVI que há uns dias desfez Celeste Cardona dizendo que o verdadeiro Ministro da Justiça era o próprio Durão Barroso, tem sido dito que o nosso Primeiro-Ministro, lembrando o histórico Presidente do Conselho, é também Ministro dos Negócios Estrangeiros, ou melhor, Ministro dos Negócios DOS Estrangeiros....

     Depois do muito (e muito triste) que temos visto, permitimo-nos discordar. Se o Ministro dos Estrangeiros não mora no cada vez mais necessitado Palácio das Necessidades, é muito duvidoso que habite no Palácio de São Bento. Parece mais residir no Palácio de Santa Cruz ou no Palácio de la Moncloa, ambos situados em Madrid...

     Pois, para opróbrio desta Nação quase milenar, tirando as cavalidades bairristas desse mago da sobrevivência política que é o indómito viajeiro visiense, José Cesário, e umas meteóricas visitas dessa diáfana e fantasmática ministra que é Teresa Gouveia, qual bestífica soror sempre recolhida em monástica clausura, de política externa nada temos visto para além das políticas iberistas de Barroso e do homem do Santander, Carlos Tavares.


Agudeza e Ironia


     Com a agudeza habitual, não escapou às Notas Verbais o arroubo de patriotismo de Durão Barroso que, na linha de probidade e amor pátrio do seu homónimo José Manuel (mas de Mello) e compadre em vários assuntos de interesse económico-governativo, foi a Madrid proclamar o sonho (para ele certamente) iberista. Também nos parece que assim é demais...

     Com uma ironia cada vez mais requintada, o meste da blogodiplomacia, sempre bem informado por fontes de insondável proveniência, revela à comunidade cibernética uma Nota (muito urgente) do adido militar de Portugal em Ceuta, general Diogo Lobo Pereira, sobre o Rochedo, Olivença e a etérea diplomacia que se vai (des)fazendo no cada vez mais invisível Palácio das Necessidades.


quarta-feira, fevereiro 18, 2004

"España es diferente"


     En los años sesenta el Ministerio de Información y Turismo, para promocionar el sector, que constituía la principal entrada de divisas al país, acuñó el famoso eslogan “España es diferente”. Y por supuesto que lo era. España era un país agrícola que vivía al otro lado de la democracia y de Europa.

     Ahora, que ya han pasado cuarenta años es una buena ocasión para cuestionarse qué queda de aquel eslogan. ¿Es que España todavía sigue siendo diferente?

     Parece que, al menos en cuanto a la libertad de información, debe ser cierto el estereotipo de que "España es diferente". Diferente de Europa Occidental actual, pero muy igual a la España franquista. ¡España sigue siendo diferente!



Urdaci es un caso


En el Reino Unido o en Francia sería inimaginable que el director de informativos de la televisión pública continuara en su puesto tras haber sido condenado judicialmente por manipular una noticia. Una sentencia de la Audiencia Nacional, de 23 de julio de 2003, condenó a TVE por la cobertura tendenciosa que había dado a la huelga general del 20 de junio de 2002. Casi siete meses más tarde, el director de informativos, Alfredo Urdaci, sigue en su puesto y sobre él recae, en la campaña electoral que se avecina, la obligación constitucional de garantizar el acceso a la televisión pública de "los grupos sociales y políticos significativos, respetando el pluralismo de la sociedad" (artículo 20.3 de la Constitución Española).

Hace unos días, el director de los informativos de France 2 -el canal público francés- dimitió porque uno de sus telediarios dio una noticia errónea sobre el porvenir político de Alain Juppé. El Urdaci francés no necesitó ninguna sentencia judicial para asumir sus responsabilidades. Poco antes habían dimitido el presidente y el director general de la BBC tras la resolución de lord Hutton que censuraba a la televisión pública británica por el tratamiento dado al caso Kelly. Aunque hay razones para discrepar del fallo de lord Hutton, la BBC lo aceptó con deportividad. Las diferencias con TVE son sangrantes.

La Constitución obliga a los medios de comunicación de titularidad pública a expresar de forma imparcial la diversidad política, social y cultural de nuestro país, lo que no ha impedido que todos los Gobiernos de la democracia hayan tenido una lamentable tendencia a utilizar TVE como instrumento partidista. Pero la sentencia condenatoria de la Audiencia Nacional carece de precedentes. Tan grave es el asunto vigente que 506 trabajadores de los servicios informativos de TVE, sobre un censo de 1.304, están impulsando un organismo para poner coto a lo que tildan de "creciente manipulación que está mermando gravemente la credibilidad de la cadena pública y de sus trabajadores".

Obligado a leer en directo la sentencia condenatoria, Urdaci lo hizo al final de un telediario, deletreando para mayor escarnio las siglas del sindicato demandante. Impertérrito, el director de informativos se mantiene en su puesto haciendo apología del Gobierno, actuando eventualmente como entrevistador áulico de Aznar. No es de extrañar que la Asamblea Parlamentaria del Consejo de Europa citara el mes pasado a TVE como ejemplo de "manipulación informativa". España, según el Consejo de Europa, forma parte del grupo de países donde los medios de comunicación públicos siguen bajo el "control político directo" del Gobierno. ¿Tiene algo que decir al respecto el nuevo líder del PP?

El País, 17 de febrero de 2004




terça-feira, fevereiro 17, 2004

Aqui se Tortura como na Ditadura


     Milhares de pessoas manifestaram-se pelo fim da tortura,em Donostia, País Basco, no passado Sábado. A manifestação foi encabeçada por familiares de patriotas torturados na cadeia ou nas esquadras da Guarda Civil, ouvindo-se palavras de ordem, entre elas: Aqui se Tortura como na Ditadura.



     Dois dias antes houve um debate sobre o tema, no La Haine, no qual dois Guardas Civis, sob pseudônimo, mas falando a partir da Direcção Geral da Guarda Civil (IP: 194.179.107.29), não só admitiram ter torturado como defenderam o uso de tortura contra os patriotas bascos, o que tem gerado comentários indignados. Entre as coisas ditas pelos Guardas, destaco:

     ”(...) el enfrentamiento entre los que no quieren ser españoles y los que sí queremos. (…) Las cosas claras, el exterminio de uno u otro”.

     ”(...) tendriamos que demostrar hasta qué punto estamos comprometidos con Euskadi y con su Unidad Española, por eso hablo de exterminio, refiriéndome a la derrota militar o bien de las fuerzas españolas o bien de las fuerzas separatistas, y para eso es necesario la toma militar de Euskadi y la imposición de un Estado de guerra”.

     ”Dicen que no hay nada como una buena guerra para unir un país


    Sem comentários.

Pensamento do dia




     «A ingenuidade em relação ao vizinho (ou face a qualquer Estado) deveria ser justa causa de despedimento de políticos».
Nuno Rogeiro



Uma Semana de Horror



     Para quem ama o seu País, o seu Povo e a sua História, para quem Portugal não é apenas um sítio com gente, mas uma Pátria com 9 séculos, a semana que passou foi uma semana de horror. Começou com um programa de televisão, “Prós & Contras” de seu nome, onde uma meia dúzia de senhores endinheirados se atropelaram em loas ao mercado espanhol e à “amizade” ibérica, terminando um deles por recomendar que os Portugueses estudassem a língua castelhana “…para termos uma vantagem competitiva e conseguirmos conquistar mercado (sic) …” – sem que ninguém se lembrasse de responder ao Snr. Fernando Ulrich, que os espanhóis estão a conquistar o nosso mercado sem se darem ao trabalho de falar uma só palavra de português … –, prosseguiu com a reunião do Beato, onde umas centenas de meninos-bem, e outros menos meninos e menos bem se juntaram, alegadamente com um “Compromisso Portugal”, mas em que se defenderam soluções que, a serem aplicadas, vão potenciar a penetração económica do país vizinho e fragilizar o Estado português e terminou com a desastrosa visita do 1º-ministro, Durão Barroso, que fez declarações de acrisolado espanholismo, misturado com declarações disparatadas sobre a competitividade da economia nacional.  Tudo isto seria um desastre se não tivesse desencadeado um saudável debate sobre as relações de Portugal com a Espanha, debate que tardava pela importância que o assunto tem para o nosso futuro colectivo como povo e debate que se está a saldar por um crescendo de críticas em relação à opção espanhola dos sectores governamentais portugueses.
     A semana que começa, abriu com um importante artigo do Gen. Loureiro dos Santos, no “Público”, artigo que certamente não deixará de colher largo eco na opinião pública, quer pelo elevado prestígio do seu autor, quer pela clareza e actualidade das questões abordadas pelo comentador.
     Os espanhóis, espanholizados e espanholizantes de todos os matizes, sub-estimaram, com o irrealismo e mania das grandezas que já tantas vezes no passado os deixou mal, o profundo amor que a esmagadora maioria dos portugueses tem pelo seu País e pelo seu povo. E atrevemo-nos a dizer que “a procissão ainda vai no adro”.


Manipulación informativa en TVE




«El Comité Antimanipulación se creó en vísperas del ataque a Irak por un grupo de los trabajadores de los Servicios Informativos de TVE indignados por la línea informativa que intentaba justificar la guerra. Su primer acto fue la redacción de un manifiesto que denuncia la manipulación en los casos de la huelga general, el caso Prestige y la guerra. El manifiesto fue respaldado por la firma de casi 800 trabajadores.



El Comité redacta y difunde semanalmente un informa sobre los casos de parcialidad y mala práctica informativa.El Comité mantiene reuniones semanales abiertas. Una comisión coordinadora de seis personas mantiene su funcionamiento ordinario. El Comité promueve la elección de un Comité Provisional de Informativos, paso previo a la negociación con la Dirección de un Estatuto de los Servicios Informativos, que desarrolle los derechos profesionales y establezca cauces estables de participación
».


segunda-feira, fevereiro 16, 2004

O desterrado




     Num dia como hoje, 16 de Fevereiro de 1886, suicidava-se em Vila Nova de Gaia, um dos maiores escultores de Portugal: Soares dos Reis.

     Uma das suas estátuas, O Desterrado integrou a Exposição de Madrid de 1881, com grande sucesso. Mereceu o 1.º prémio e o autor teve direito a ser agraciado com o Grau de Cavaleiro da Ordem de Carlos III, sendo condecorado pelo próprio Rei Afonso XII.

     Como sucede com os homens de grande mérito em Portugal, Soares dos Reis suscitou intrigas e invejas que o levariam à morte. É difícil ser grande numa Pátria geralmente dominada por gente demasiado pequena!...



A Península nas nossas mãos...


     A dualidade estadual na Península Ibérica é uma realidade difícil de manter. Durou vários séculos, mas as alterações verificadas em Portugal com o fim do Império e desencadeadas em toda a península por efeito da União Europeia criam no horizonte as alternativas da unidade, pelo desparecimento de Portugal, ou da multiplicidade, pela desintegração da hegemónica Espanha.



     Quando uns se ajoelham em Madrid em aleivosa vassalagem, outros em Lisboa clamam nos jornais ou laboriosamente operam nos ministérios pela construção da Ibéria e muitos passivamente olham ou fecham os olhos indiferentes ao combate mortal que se trava nesta ponta da Europa, convirá ter consciência de que o futuro de Portugal e do resto da península também depende de nós, de todos nós.

     Se à "solução final" das nacionalidades insubmissas a Castela só restar como alternativa a "solução final" do imperialismo castelhano, não há muitas opções a fazer. Nesta peleja mortal se verá de que lado estará cada um de nós, de todos nós.

     O General Loureiro dos Santos acaba de publicar uma excelente análise sobre esta problemática: Futuro Político da Península nas Nossas Mãos. Leia-se!


Recuperação da portugalidade



     A propósito da alteração absoluta da nossa realidade que a incorporação de Portugal na «Europa» significou, e antes da contabilidade que agora se vai fazendo, mais teria importado que, sobre a mesma tivéssemos feito a conveniente apreciação e discussão e o suficiente exame colectivos. Não se fez. Alguns contributos houve. Mas, será evidente para todos, foram poucos.

     De José Fernandes Fafe, no seu «Portugal, meu remorso de todos nós» (Lx., 1993), «Recuperação da portugalidade»:



Observemos o mapa da Península Ibérica. Um país relativamente grande — a Espanha, e outro relativamente pequeno — Portugal. O pequeno há-de recear o grande...
A esta observação «naive», a História fornece uma base. Sem falar de Leão, de cujo imperador Afonso Henriques era vassalo, percebe-se a vontade, desde o século XII, primeiro de Castela, e de Espanha depois, de absorverem Portugal.
Talvez mais correctamente. A história da Península Ibérica é percorrida por um desejo político de unificação. Portugal fez algumas tentativas para reunir os Estados peninsulares, sob a sua hegemonia. Mas ficou sempre longe do êxito. Ao passo que Castela esteve a uma batalha dele (1385) e a Espanha o obteve (1580). A memória histórica e a História legitimam o receio português.
Mas, para a conjuração do perigo que os portugueses sentiam vir do Leste, a geografia ofereceu-lhes possibilidades. «Cá nós de uma parte nos cerca o mar e de outra temos muro no reino de Castela» (Zurara). Foi através do oceano que Portugal conseguiu compensações ao desequilíbrio peninsular.
Primeiro, tirando partido da importância do litoral nas comunicações Mar do Norte-Mediterrâneo, os apoios obtidos na Flandres, na Inglaterra e em Estados italianos. No século XIV (1381 e 1385), os destacamentos ingleses que se bateram ao lado das tropas portuguesas. Com D. João I, à perda de interesse da Inglaterra pela Península, corresponde a «compensação ultramarina» (uma das intenções da conquista de Ceuta terá, possivelmente, sido a de procurar deter a expansão castelhana para o Sul de Gibraltar). Com D. João II, consolida-se o poder naval português, pelo triângulo ilhas-costa de África-rota da Mina.
Mas, para a obtenção destas compensações diplomáticas, políticas e militares, é preciso que Portugal mantenha livre a sua fronteira oceânica. Daí a obsessão portuguesa de um envolvimento pêlos lados do Atlântico. Nas vésperas de 1580 a decadência do poder naval português permitiu (segundo o citado investigador) o domínio da fronteira marítima pelo vizinho, que já em terra nos era superior. Sabe-se o que aconteceu.
Não vale a pena prosseguir. Este segmento da história de Portugal basta a que possamos detectar e exumar, do fluxo dos acontecimentos, uma estrutura. Três elementos em relação: o grande país, o pequeno país, o contrapeso que se tem de colocar no prato deste último para conseguir o equilíbrio (lei da estrutura).
Esta interrelação apresenta várias configurações. Vimo-lo atrás: Com D. João I, a «compensação» passa a ser menos a Inglaterra do que o Norte de África e o Atlântico... Mas a estrutura geopolítica permanece: o desequilíbrio político da Península compensado por posições portuguesas extrapeninsulares.
[...]
Penso que pode falar-se da portugalidade com referência à estrutura geopolítica que esquematizei e, possivelmente, a outras (linguística, de mentalidade, etc.) apuráveis.
Nesse caso, teremos salvo a portugalidade, a palavra e a noção, do patrioteirismo e do paralogismo, trazendo-a para a História, para a História de «longa duração», «quase imóvel», mas móvel, como tudo na História, e dando-lhe o fundamento mais sólido que na História há, o das estruturas que «o tempo demora imenso a desgastar» (Braudel), ainda que acabe por desgastar e transformar.
A adesão de Portugal e da Espanha à Comunidade Económica Europeia incidirá, por força, na indicada estrutura geopolítica. Superficialmente? Provocando uma mudança de figura na estrutura? Provocando a mudança da estrutura? Estas hipóteses traçam uma vaga demarcação de um terreno de análise e de consequente predizibilidade, terreno em que não posso entrar.
Mas pô-las serve já para insistir em que as próprias estruturas não estão isentas de mudança. Ainda que, para remarcá-lo bem, o Estado-nação fosse talvez o exemplo mais impactante. Neste momento, vemo-lo enfraquecido por fenómenos externos e interiores. O Estado-nação é hoje outro, relativamente ao século XIX, ou mesmo à primeira metade do século XX. E com certeza deixará um dia de existir.
A recuperação que tentei da ideia da portugalidade, se resultou, tem o mérito de resolver a contradição formal entre a mudança, característica que define a História, e a permanência na História, que por vezes se nos impõe.
Isto no plano teórico. Porque no plano prático, a necessidade em que nos encontramos de «repensar Portugal» obriga-nos a procurar as palavras, as noções, os conceitos, e os métodos mais apropriados para o fazer.
(Julho, 1985)

domingo, fevereiro 15, 2004

Pensamento do dia


     De dois homens tão diferentes no seu modo de pensar, de viver e de sentir, a mesma ideia, a mesma lição para os dias de incerteza, de descrença, de pessimismo que hoje vivemos, porque o que interessa é Portugal:



     «Não devemos ter medo do escuro, ou seja: da incerteza dos tempos que aí vêm. Os desafios enfrentam-se e, quando há coragem e se sabe o que quer, encontra-se sempre forma de lhes dar a volta e resolver».
Mário Soares


     «Nada é insolúvel quando uma Nação tem força de vontade para resolver os seus problemas».
Salazar



sábado, fevereiro 14, 2004

Tortura en Euskal Herria


     Alrededor de 20.000 personas han recorrido las calles de Donostia para exigir la erradicación de la tortura en Euskal Herria, bajo el lema "25 urte torturapean. Aski da".



     Han portado la pancarta el director del diario "Berria", Martxelo Otamendi, la ex presa Anika Gil y familiares de Xabier Calparsoro, Joseba Arregi, Mikel Zabaltza y Gurutze Iantzi, muertos en manos de la policía española.

     Los métodos de tortura que más se repiten contra los vascos son golpes, extenuación física, impedir la visión, amenazas y gritos, agresión sexual, simulacro de ejecución, bolsa, bañera y electrodos.



Mais um escândalo em Espanha...


     Somando escândalo atrás de escândalo, ninguém pára o PP espanhol, nem mesmo o eleitorado que parece continuar a confiar neste partido no acto eleitoral que se aproxima.

     O dirigente da Esquerda Republicana da Catalunha, Joan Puigcercós, denunciou que o Governo espanhol tem canalizado a maior parte da ajuda humanitária que se destinaria ao Iraque para «fundações ligadas ao PP e à Opus Dei». Por seu lado, a ONG Intermon-Oxfam diz que «dos primeiros 50 milhões de euros anunciados, só 6,7 milhões são verdadeiramente de ajuda humanitária».

     Segundo a edição online do El Periódico, pelo menos três fundações ligadas à esposa do Primeiro-Ministro José María Aznar, Ana Botella, e a ministros, ex-ministros e deputados do PP, receberam quase quatro milhões de euros.

     Apesar dos inegáveis progressos económicos da Espanha, o regime rançoso de Aznar assemelha-se cada vez mais - em prepotência, tirania, corrupção, tráfico de influências, vigilância dos serviços de informações aos partidos da oposição e interferência no sistema judicial - aos seus homólogos africanos ou da América do Sul...

     Não obstante toda esta escandaleira, em Portugal continua o corropio, desde o PS ao PSD, para o beija-mão ao grande padrinho da Ibéria. Amanhã teremos mais um episódio desta vergonha...



Asturianos pretendem votar na sua língua


     A organização ANDECHA ASTUR, solicitou à Junta Eleitoral Provincial das Astúrias, que seja usado o asturiano nos boletins de voto, nas eleições do próximo 14 de Março. ANDECHA ASTUR, pretende assegurar o direito ao sufrágio em condições de igualdade, para todos os cidadãos asturianos e, se a proposta for recusada, recorrerá às instâncias competentes.


Alegria no céu...


     O Alentejo é não só uma das regiões economicamente mais deprimidas de Portugal, mas também uma daquelas em que a "invasão" espanhola se tem feito sentir de forma mais devastadora.

     Antes da constituição do Mercado Único Europeu quase só se fazia sentir a invasão do espaço radiométrico fronteiriço pelas estações de rádio espanholas que se sobrepunham às emissoras portuguesas. Depois disso começou, progressivamente, uma avassaladora penetração em todos os domínios da actividade. Hoje, nas lojas, grande parte do que se vende é espanhol. Em alguns concelhos quase toda a terra arável foi adquirida por espanhóis. Alguns jornais passaram a publicar textos em castelhano ou caíram na órbita ideológica espanhola. Quem circula na auto-estrada Lisboa-Elvas pensa estar num Autovia espanhola, já que quase todas as estações de serviço são espanholas. São apenas alguns exemplos do que se está a passar...

     Mas não foram apenas as empresas ou os terrenos que caíram sob o domínio espanhol. Foram sobretudo certas consciências e alguns detentores de cargos públicos.

     Alguns começam agora a perceber que o sonho em que puerilmente acreditaram se está a revelar um pesadelo.

     Um dos grandes defensores da amizade espanhola era o presidente da Câmara Municipal de Elvas, Rondão Almeida. É proverbial a sua amizade e submissão ao Alcaide de Olivença, a ponto de, por várias vezes, ter proferido miseráveis aleivosias e vergonhosos dislates em matérias em que a sua responsabilidade política impunha o respeito pela posição oficial do Estado português. De resto, a sua cumplicidade, por acção ou omissão, com as autoridades da outra margem do Guadiana são motivo de um processo judicial a correr no tribunal da cidade que administra...



     Qual conversão pauliana, lemos no jornal Linhas de Elvas da passada semana estas surpeendentes afirmações:

Linhas de Elvas - Na sua opinião, por onde passa o futuro de Elvas?

Rondão Almeida - A Câmara de Elvas tem um grande desafio pela frente. Diria mesmo, não só a Autarquia elvense, como a Comissão de Coordenação do Desenvolvimento Regional e o próprio Governo. Nós não podemos gastar milhões de contos para fazer vias de comunicação rápidas e não tirar rendimento delas. Há três projectos extremamente importantes para esta região. Estamos a falar no TGV, na via férrea e na auto-estrada. Estas três entidades não podem fazer este investimento para deixar Badajoz crescer mais. Se por acaso o nosso Governo e a CCDR não estudarem a tempo toda esta área territorial, as mais-valias desses fortes investimentos irão cair no lado de lá da fronteira. Pela primeira vez temos que andar mais rápidos que os espanhóis e estou-me a aperceber que é isso que está a acontecer. Eles, em determinada altura, andaram, disseram que a localização da estação era no Caia, puxando a própria cidade até à fronteira e afogando-a com alguns equipamentos que passam desde o ócio até às questões empresariais. Com este tipo de estratégia, eles não querem uma relação transfronteiriça, mas sim a colonização de um concelho de um País vizinho.


     Abismado com o que leio, resta-me exclamar perante o Mundo, mas sobretudo para o Alentejo, as sábias palavras de São Lucas: «Há mais alegria no céu por um pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência»...


sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Barroso, el iberismo y el directorio


     Hoy leo en el periódico madrileño ABC:

«El primer ministro portugués, José Manuel Durao Barroso, afirmó ayer en el Foro de la Nueva Economía, en el que también intervino el presidente José María Aznar, que Portugal «comparte en el fondo» la postura española ante la Conferencia Intergubernamental encargada de elaborar la futura Constitución de la UE y el reparto de poder entre sus miembros.

Barroso, en el Gobierno desde 2002, destacó el papel que el «iberismo» debe desempeñar en la futura Europa de los Veinticinco y recalcó que la UE se tiene que basar «en la igualdad de sus miembros». «No se puede aceptar un futuro directorio de dos o tres países -en alusión a Francia, Alemania y Gran Bretaña- que nos den todo cocinado y los demás debamos comer».
».



     Me ocurre una cuestión: ¿Si en lugar de tres países el futuro directorio tuviere cuatro o cinco países, incluyendo España, Barroso continuará apoyando la posición española?


La muerte de Humberto Delgado y Olivenza




     13 de febrero de 1965. Humberto Delgado, "El General sin Miedo", fundador de la sociedad "Amigos de Oliença", fue asesinado en "Los Almerines", una granja abandonada sita en el pueblo de Olivenza.

     ¿Quién lo ha matado y por qué? ¿Qué participación tuvo España en el crimen?

     Léase el artículo "Un enigma histórico: La muerte de Humberto Delgado y Olivenza: Fin de un largo drama".



O Estatuto De Gibraltar


     A Grã-Bretanha preconiza a modernização dos governos dos seus territórios ultramarinos até 2006, mas exclui Gibraltar dessa lista. Esta exclusão é interpretada como o desejo de que o Rochedo evolua para um relacionamento não-colonial com a actual metrópole, ao invés de procurar um estatuto de colónia modernizada como acontece com outros territórios. Pitcairn também foi excluída, sendo considerada território em vias de descolonização, e existem pressões da ONU para que Gibraltar siga o mesmo caminho.
     Ora se o Rochedo evolui para uma relação não-colonial, se está em vias de descolonização, estaremos talvez a assistir ao alvorecer de uma nova pátria.


quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Riso de Aznar...


     Durão Barroso: «A Espanha não é um risco [ para Portugal ] mas uma possibilidade»...



Sem comentários...



Pensamento do dia




     «A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de ruptura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo...».
Padre Manuel Antunes, Repensar Portugal, Lisboa, 1979.



Aznar e Barroso


     Se uma imagem vale mais do que mil palavras, este "cartoon" diz tudo, ou quase tudo, sobre o que se está a passar em Madrid, entre hoje e domingo...


J.N. (02/02/2004)



12 de Fevereiro de 1761


     Num dia como hoje, 12 de Fevereiro de 1761, é assinado o Tratado do Pardo, entre D. José I de Portugal e Carlos III de Espanha, que substitui o Tratado de Madrid de 13 de janeiro de 1750 sobre os limites da América e da Ásia.


quarta-feira, fevereiro 11, 2004

11 de Fevereiro de 1965


     Vindo de Argel, com passagem por Casablanca, Tetuão e Ceuta, Humberto Delgado entra em Espanha, por Algeciras: é 11 de Fevereiro de 1965.



     Daí segue para Badajoz e depois para Olivença, a sua terra amada.

     Dentro de dois dias, junto à ribeira de Olivença, será assassinado. Assim, a poucos quilómetros desta terra portuguesa cativa da Espanha, morria um dos fundadores do Grupo dos Amigos de Olivença, ironicamente próximo da Vila que pretendia resgatar para Portugal...





Elite ou escol nacional?




     Longe da monástica pobreza de outros tempos, reuniram-se, ontem, no vetusto Convento do Beato, cerca de quinhentos gestores e empresários "portugueses" que se autoproclamaram como a “nova geração” empresarial do País e, erguendo-se em bicos de pés, se arrogaram ao direito de se virem a constituir-se como a futura “elite dirigente” de Portugal.

     Foram tema abordado na generalidade dos jornais do dia e assunto de todos os noticiários televisivos da noite.

     Num canal de televisão foram exibidos os carros de topo de gama em que se deslocaram para tão magno encontro estes prosélitos incondicionais do ultraneoliberalismo reinante. No mesmo ou nos outros canais televisivos pudemos ouvir as sapientíssimas declarações de alguns deles.

     António Carrapatoso - o homem para quem não interessa que o patrão seja português ou estrangeiro desde que lhe pague bem - falava em «competividade»; repito «competividade»..., palavra que usa quase diariamente mas que suponho não fazer parte do vocabulário da Língua Portuguesa, a menos que o dicionário da Academia das Ciências, o mesmo que passou a incluir "bué" entre as suas entradas... tenha passado a considerar esta alarvidade como legítimo neologismo do nosso idioma. Solicita-se deste modesto "blogue" que alguém informe este mago da gestão empresarial moderna que em vez de dizer «competividade» deve dizer «competitividade»...

     Um jovem licenciado em Gestão de Empresas, um dos que certamente também aspira a fazer parte da nova "elite dirigente", seguindo as pisadas de algum dos grandes mestres que o devem ter acompanhado na jornada heróica, tropeça na flexão verbal e estendendo-se ao comprido, vomita para cima da jornalista que o entrevista este inefável dislate: «sei o que valo»... Pelo domínio linguístico evidenciado nos poucos segundos em que manteve a bocarra escancarada, manifesta um autoconceito demasiado optimista para o que parece valer... De qualquer modo, o optimismo é um estado de espírito de que Portugal tanto necessita e muitos optimismos assim constribuirão, por certo, para reerguer as energias nacionais tão abatidas no momento presente e certamente ainda mais derreadas no futuro se à mediocridade dominante nos dias que correm suceder uma fatuidade ainda maior nos anos vindouros...

     Diogo Vaz Guedes, depois do que já mostrara como estratega empresarial ao render-se à armada espanhola, também não deixou para boca alheia a manifestação de quanto ignora uma conhecida asseveração: «O bom domínio da língua oral será o prelúdio de uma boa aprendizagem». Não sendo propriamente um simples negociante da feira da ladra - que certamente preferirá conservar a sua independência mantendo a sua singela banca de pau e lona em vez de se transformar num qualquer empregado de caixa de um hipermercado - talvez não seja pedir demais ao antigo dono da Somague que, apesar da coloquialidade do acto, estando a falar para um ou dois milhões de telespectadores, diga «para nós» em vez de «p'a nós»... Apesar do mau português em que se expressou, mostrou-se como um valoroso português, digno de ombrear, em coragem e destemor, ao lado de Nuno Álvares Pereira ou do Mestre de Avis, proclamando patrioticamente: «Não temos medo dos Espanhóis!». No caso dele até é bem verdade. Ele não tem por que temer os Espanhóis, agora que vendeu a empresa que herdou dos progenitores aos vizinhos do lado, da Sacyr, que, mais do que nunca, têm o mercado português da construção civil à sua mercê... Agora, sentado numa cadeirinha bem estofada em Madrid, a ver passivamente os seus consócios a tomarem decisões sobre toda a Ibéria, não tem de que recear...

     Por isto e por muito mais, é evidentíssimo que o País não precisa apenas de um "nova geração" e de uma "nova elite” dirigente. Do que Portugal carece, imperiosamente, é de uma "ínclita geração" e de um verdadeiro "escol nacional", realidades abissalmente diferentes das que aqueles missionários da mensagem iberoliberal nos propalaram. Caso contrário, teremos apenas "mais do mesmo" ou ainda pior do que temos tido...


terça-feira, fevereiro 10, 2004

Pensamento do dia


    


     «Em Portugal parecem abundar os sucessores dos que a história - na nossa versão da mesma - sempre acabou por colocar do lado errado, hoje em dia paramentados como verdadeiros missionários da fé ibérica. Por outro lado, floresceu e parece ter vingado uma vasta colheita de «opinadores» que teimam em ignorar o mundo em que vivem e se limitam a aludir, pela milésima primeira vez, que tudo está explicado em Smith e Marshall. Esquecem-se que o mercado falha, umas vezes por que tem de falhar mas outras porque o fazem falhar. Enquanto parte das nossas elites não quiser pensar com os instrumentos de análise que domina limitando-se a propalar conclusões óbvias em contexto «laboratorial» dificilmente haverá condições para que os dirigentes políticos se sintam obrigados a conceber e executar uma verdadeira estratégia. Pelos vistos, a lógica do Príncipe não se aplica a Portugal...?!».
António Nogueira Leite





A Propósito do "Compromisso Portugal"


     Já muito se disse e se escreveu. Muito ainda se dirá e se escreverá nos próximos dias sobre o famigerado "Compromisso Portugal".

     Nós próprios não deixaremos de dizer e de escrever oportunamente algo sobre o tema.

     A história empresarial dos dois principais promotores do evento fala só por si, espelha os seus propósitos, esclarece o seu pensamento, revela o verdadeiro "compromisso" que têm para com Portugal: António Carrapatoso, para quem - falando de barriga cheia porque a nova dona estrangeira da antiga empresa portuguesa Telecel, a Vodafone, o manteve no lugar - é inútil discutir sobre os "centros de decisão nacional"; Diogo Vaz Guedes, que dias depois de fazer um acordo entre a que foi a sua Somague e as duas outras maiores construtoras nacionais para conseguirem enfrentar a competição estrangeira, sobretudo espanhola, vendeu a empresa que herdou a uma sociedade anónima espanhola e repete agora esquizofrenicamente, de modo incessante, qual disco riscado, que a Espanha não é uma ameaça mas uma oportunidade: também fala de barriga cheia, mas talvez quando deixar a puberdade intelectual, em que ainda se encontra, compreenda que o Pai Natal é uma fantasia que os pais contam às crianças, em que alguns acreditam até muito tarde, por vezes tarde de mais para perceberem o que é a vida real...

     Além do brilhante texto de Nicolau Santos, reproduzido a seguir, leia-se:




Cinco ideias erradas ou Portugal dos pequeninos



De Nicolau Santos, com a habitual clarividência:

Cinco ideias erradas

CERCA de 300 gestores reúnem-se na terça-feira no Convento do Beato, numa convenção sob o lema «Compromisso Portugal». Não se trata de um movimento político, nem há unanimidade de pensamento nos organizadores e participantes. Em qualquer caso, o «Compromisso Portugal» surge aos olhos da opinião pública como uma alternativa, quer em termos etários, quer de opções filosóficas, ao «Manifesto dos 40», apresentado ao país há cerca de um ano e logo acusado de proteccionismo, e no qual constavam nomes como os de Jardim Gonçalves, José Manuel de Mello, Soares dos Santos, Américo Amorím, Ernâni Lopes, Ludgero Marques, Ricardo Salgado, Pedro Ferraz da Costa e João Salgueiro, mas também António Borges e Diogo Lucena.
Pelo «Compromisso» perpassa o neo-liberalismo de um conjunto de gestores entre os 35 e os 50 anos, preparados nas melhores escolas internacionais, que fazem da eficiência o seu credo e do mercado puro e duro o seu deus. Repito: não é uma característica homogénea. Mas é a tendência dominante. E é a ela que são dirigidos cinco reparos ao seu modo de olhar Portugal e o mundo.

1) GESTÃO FEITA POR PORTUGUESES NÃO É UMA GESTÃO PORTUGUESA

Assim como não se deve confundir o Germano com o género humano, para citar Mário de Carvalho, também não se deve confundir a gestão feita por portugueses com a gestão portuguesa. A primeira preocupa-se única e exclusivamente em rentabilizar o capital investido pelo accionista. A segunda capta projectos que constituem uma mais-valia para o país e emprega mais e mais mão-de-obra nacional altamente qualificada. Exemplos: a Siemens, liderada por Carlos Melo Ribeiro e João Picoito, tem uma inequívoca gestão portuguesa, que atrai centros de competência para o país. O Grupo Totta tem uma excelente gestão feita por portugueses — mas todo o centro de decisão está do outro lado da fronteira.

2) O QUE É BOM PARA OS ACCIONISTAS PODE NÃO SER BOM PARA O PAÍS

O credo neo-liberal acredita piamente que a criação de valor para os accionistas é o deus ex-machina a que tudo se deve subordinar. Mas há decisões que, privilegiando essa vertente, esquecem outras que, a prazo, são bens mais decisivas para o país. Exemplo: a aposta da Galp numa rede de bombas de gasolina em Espanha, onde ganha mais dinheiro a vender Coca-Colas do que em cada litro de gasolina, tem trazido valor para os accionistas. Mas se para aprofundar isto, António Mexia abandonar o «up-stream» da exploração petrolífera em Angola, isso penaliza a estratégia de afirmação de Portugal em África. A Galp também mantém bombas de gasolina em locais recônditos do país por imposição do Estado. Se os abandonasse, a empresa ganhava mais. Mas quem perdia era a coesão social e espacial do país.

3) O SUCESSO INDIVIDUAL NÃO É O SUCESSO DO PAÍS

Outra ideia muito comum é que o sucesso individual é também o sucesso do país. Errado. O sucesso de António Viana Baptista como vice-presidente da Telefónica, ou de António Carrapatoso como presidente da Vodafone Portugal ou de António Borges como vice-presidente da Goldman Sachs é certamente óptimo para eles sob os pontos de vista profissional e financeiro e é motivo de satisfação para a gestão nacional. Mas não resolve um único problema de Portugal. Eles trabalham, e bem, para criar valor para os seus accionistas — o que não significa. Não trabalham para criar valor para Portugal. E como é óbvio não é o mesmo que Diogo Vaz Guedes seja o presidente da Somague ou um dos vice-presidentes da Sacyr Vallchermoso. Como disse D. Luísa de Gusmão, mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida.

4) QUEM VENDE SAI DO MERCADO

Quem acredita que a eficiência é mais importante que a existência, aceita como natural a compra das empresas portuguesas por interesses estrangeiros. E defende que daí não vem mal ao mundo. Quem vende recebe as respectivas mais-valias e pode depois aplicá-las noutros negócios. Em teoria, será verdade. Na prática não funciona. Quem vende não volta a entrar no mercado. Diogo Vaz Guedes não vai voltar a fundar uma construtora. Possivelmente, terá uma rede de hotéis de charme. É bonito. Mas faz a sua diferença.

5) CENTROS DE DECISÃO NÃO SÃO CENTROS DE COMPETÊNCIA

António Carrapatoso não quer que o «Compromisso Portugal» se centre à volta deste tema. Mas se isso não acontecer, a iniciativa será um «flop». Para dizer mal do Estado já existe muita gente. O que a sociedade quer ouvir dos novos empresários é qual os caminhos que apontam para que Portugal se afirme no séc. XXI. E isso implica discutir a questão dos Centros de Decisão Nacional e dos Centros de Competência, sem que se possa ignorar que os CCN são muito mais frágeis se estiverem longe dos CDN. E implica também perceber que sem CCN e, sobretudo, sem CDN, Portugal deixa de ser um país para passar a ser um sítio, deixa de existir para ir existindo. E isso faz toda a diferença. Dito isto, o «Compromisso Portugal» é um acontecimento importante. Pela primeira vez, a nova geração de gestores reúne-se para discutir o país, deixando os políticos de fora. Mas este congresso corre três riscos. O primeiro é que tudo acabe no dia a seguir. O segundo é que o Estado seja o único bombo da festa. E o terceiro é que seja a plataforma de lançamento para os objectivos políticos de alguns. Espero que não aconteça. E que o «Compromisso» seja a afirmação de uma nova elite nacional - e do seu orgulho em manter-se ferozmente português. Porque Portugal é bom.

(In Expresso, 07-02-04)



segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Uma heroína do nosso tempo


     Num tempo desprovido de referências éticas, dominado pela anomia moral, em que os traidores da Pátria são alçados à categoria de heróis e em que a aleivosia parece ser condição essencial para o exercício dos mais altos cargos políticos, uma grande mulher, uma heroína portuguesa pouco conhecida a sul do Minho constitui um padrão inesquecível da consciência portugalaica: Alexandra Pinheiro.

     Condenada a 58 anos de prisão por alegado envolvimento com o Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive (EGPGC), por um país onde o sistema judicial se confunde com o aparelho político e em que o Direito Penal, próprio de um regime tirânico ou do Terceiro Mundo, vive completamente à margem dos progressos do pensamento criminal dos últimos cento e cinquenta anos, Alexandra Pinheiro é um modelo para todos quantos conhecem e sentem o valor da Liberdade e da Independência e abnegadamente combatem os resquícios perenes da última ditadura fascista da Europa ocidental que impunemente se pavoneia perante o Mundo sob o disfarce de um regime democrático onde os agentes do franquismo só abandonam o poder quando a fatalidade da biologia os posterga para o apagado e triste reino do Hades e onde a cada passo renascem, qual recidiva pestífera, novos sequazes do Generalíssimo... Fraga Iribarne e José María Aznar são dois exemplos perfeitos desse passado que não passa e de um presente que teima em não se afastar do pensamento e dos hábitos de antanho, mais enraizados e resistentes que as piores ervas daninhas...

     Uma impressiva reportagem sobre esta Portuguesa, símbolo de tudo o que une Portugal e a Galiza e separa radicalmente a faixa ocidental da Península do despótico centralismo imperialista de Castela, foi recentemente publicada pelo Jornal de Notícias. Pode ler-se aqui.


Bases Democraticas Galegas


     Um grupo de cidadãos galegos publicou recentemente um manifesto intitulado Bases Democráticas Galegas, com o objectivo fundamental de «resgatar o vigor de príncipios como os que falam de autodeterminaçom e democracia, de defesa da língua e dum quadro galego de relaçons laborais».

     Estas Bases Democráticas Galegas sinterizam-se nos seguintes princípios:

1- Galiza é umha naçom. Tem direito ao exercício de autodeterminaçom.

2- O povo galego e Galiza som o único sujeito e ámbito soberano de decisom.

3- Democracia real e participativa. Cessamento do recorte das liberdades.

4- Plena normalizaçom do galego como língua própria da Galiza.

5- Marco galego de relaçons laborais.

6- A naçom galega nom se cinge exclusivamente ao território actual da CAG.


     Entre os primeiros subscritores e dinamizadores da iniciativa estão Antolín Alcántara, Celso Álvarez Cáccamo, Bráulio Amaro, Begonha Caamanho, Antón Dobao, Domingos Antom Garcia Fernandez, Xosé Maria Dobarro, Marcial Gondar, Dionísio Pereira, Afonso Ribas, Xesus Sanxuás, Xurxo Souto, Carlos Taibo e Carlos Velasco Souto.




domingo, fevereiro 08, 2004

Oportunidade perdida


     Há precisamente 14 anos, no dia 8 de Fevereiro de 1990, era aprovada a Lei Quadro das Privatizações, que se aplicaria «à reprivatização da titularidade ou do direito de exploração dos meios de produção e outros bens nacionalizados depois de 25 de Abril de 1974».

     O seu Artigo 3.º definia claramente os objectivos a que obedeceriam as reprivatizações:

a) Modernizar as unidades económicas e aumentar a sua competitividade e contribuir para as estratégias de reestruturação sectorial ou empresarial;

b) Reforçar a capacidade empresarial nacional;

c) Promover a redução do peso do Estado na economia;

d) Contribuir para o desenvolvimento do mercado de capitais;

e) Possibilitar uma ampla participação dos cidadãos portugueses na titularidade do capital das empresas, através de uma adequada dispersão do capital, dando particular atenção aos trabalhadores das próprias empresas e aos pequenos subscritores;

f) Preservar os interesses patrimoniais do Estado e valorizar os outros interesses nacionais;

g) Promover a redução do peso da dívida pública na economia.


     O Artigo 16.º estabelecia que as «receitas do Estado provenientes das reprivatizações» seriam «exclusivamente utilizadas, separada ou conjuntamente, para:

a) Amortização da dívida pública;
b) Amortização da dívida do sector empresarial do Estado;
c) Serviço da dívida resultante de nacionalizações;
d) Novas aplicações de capital no sector produtivo
».

     Catorze anos depois, o balanço das reprivatizações pode qualificar-se, no mínimo, como uma gigantesca tragédia nacional, talvez só ultrapassada pela trágica dimensão das nacionalizações operadas após o 25 de Abril. Trinta anos depois deste acontecimento histórico, os arautos das nacionalizações e os paladinos das reprivatizações podem disputar entre si o lugar no pódio de quem contribuiu mais decisamente para a destruição da economia nacional e para a perda da nossa independência económica.

     Grande parte dos famigerados "centros de decisão" foram entregues ao estangeiro, acção em que é difícil determinar quem tem mais mérito (ou demérito), se o PS ou o PSD, para quem reprivatizar mais não foi do que alienar activos estratégicos sem qualquer estratégia nacional. A capacidade produtiva nacional não se alterou significativamente, passando diversas empresas produtivas a servir de mero instrumento comercial de empresas industriais ou financeiras estrangeiras. A dívida pública continua a ter dimensões colossais e o défice orçamental está cada vez mais descontrolado, apenas se escondendo com manipulações, receitas extraordinárias e mais alienações sem outro critério nem propósito que não seja cobrir desesperadamente despesas correntes. Depois de alienarem quase todas as empresas públicas lucrativas, os dirigentes que nos têm (des)governado deixaram para o fim da hasta pública em que Portugal está metido as empresas com brutais défices de exploração e ciclópicos passivos... Inteligentemente, começaram por vender a boa carne e deixaram os ossos para o fim...

     A dinamização do mercado de capitais, a redução do peso do Estado na economia e o desenvolvimento de um ténue "capitalismo popular" são conquistas bem pequenas quando o mais importante seria ter criado fortes grupos económicos nacionais e conseguido a modernização do sistema produtivo português.



     Depois de vários séculos a confiscar bens aos judeus, após a expropriação das ordens religiosas no século XIX e na Primeira República e finalmente depois do roubo perpetrado contra os empresários portugueses engordados no Estado Novo com o condicionamento industrial e o proteccionismo do regime, a quem irá o Estado esbulhar agora quando está à beira do colapso? Como não há coragem para voltar a fazer novas nacionalizações, porque estão fora de moda e sobretudo porque os proprietários de grande parte do aparelho produtivo são estrangeiros, só resta mesmo à mísera classe dirigente do que resta deste País, depois de venderem o que ainda sobra, esmifrar até ao osso o desgraçado do Zé Povinho... Mas esse já tem pouco para lhe ser roubado!...


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